São João da Cruz - Vivo sem viver em mim


VIII Coplas da alma que padece por ver a Deus




Vivo sem viver em mim
 E de tal maneira espero
Que morro porque não morro.

1. Eu em mim não vivo já
E sem Deus viver não sei,
Sem Ele e sem mim serei
E este viver que será?
Mil mortes se me fará
Pois que a minha vida espero
Morrendo porque não morro.
2. Esta vida em que eu vivo
É privação de viver;
É um constante morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo:
Esta vida não a quero
Pois morro porque não morro.
3. Estando ausente de ti
Que vida é que posso ter
Senão morte padecer,
A maior que jamais vi?
Lástima tenho de mim:
De tal sorte persevero
Que morro porque não morro.
4. Fora de água o peixe é tal
Que de alívio não carece,
Pois na morte que padece
No fim a morte lhe vale.
Que morte haverá igual
Ao viver em desespero
Pois se mais vivo mais morro?
5. Ao sentir me aliviar
Eu te ver no Sacramento,
Mais se aviva o sentimento
De não poder-te gozar;
Tudo aumenta o meu penar
Por não ver-te como quero
E morro porque não morro.
6. E se me alegro, Senhor,
Com a esperança de ver-te,
Vendo que posso perder-te
Logo dobra a minha dor
Vivendo em tanto pavor
E esperando como espero,
Eu morro porque não morro.
7. Liberta-me tu desta morte,
ó meu Deus, e dá-me a vida;
Não me tenhas impedida
Com este laço tão forte:
Minha dor é de tal sorte,
Meu desgosto tão sincero
Que morro porque não morro.
8. Chorarei já a minha morte,
Lamentarei minha vida
Enquanto presa e retida
Por meus pecados está.
Oh meu Deus! Quando será
Que eu possa dizer deveras
Vivo já porque não morro?

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