VIII Coplas da alma que padece por ver a Deus
Vivo sem viver em mim
E de tal maneira espero
Que morro porque não morro.
| 1. Eu em mim não vivo já E sem Deus viver não sei, Sem Ele e sem mim serei E este viver que será? Mil mortes se me fará Pois que a minha vida espero Morrendo porque não morro. |
2. Esta vida em que eu vivo É privação de viver; É um constante morrer Até que viva contigo. Ouve, meu Deus, o que digo: Esta vida não a quero Pois morro porque não morro. |
| 3. Estando ausente de ti Que vida é que posso ter Senão morte padecer, A maior que jamais vi? Lástima tenho de mim: De tal sorte persevero Que morro porque não morro. |
4. Fora de água o peixe é tal Que de alívio não carece, Pois na morte que padece No fim a morte lhe vale. Que morte haverá igual Ao viver em desespero Pois se mais vivo mais morro? |
| 5. Ao sentir me aliviar Eu te ver no Sacramento, Mais se aviva o sentimento De não poder-te gozar; Tudo aumenta o meu penar Por não ver-te como quero E morro porque não morro. |
6. E se me alegro, Senhor, Com a esperança de ver-te, Vendo que posso perder-te Logo dobra a minha dor Vivendo em tanto pavor E esperando como espero, Eu morro porque não morro. |
| 7. Liberta-me tu desta morte, ó meu Deus, e dá-me a vida; Não me tenhas impedida Com este laço tão forte: Minha dor é de tal sorte, Meu desgosto tão sincero Que morro porque não morro. |
8. Chorarei já a minha morte, Lamentarei minha vida Enquanto presa e retida Por meus pecados está. Oh meu Deus! Quando será Que eu possa dizer deveras Vivo já porque não morro? |

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