ut Lumen Lucernae
"Quoniam tu accendis lucernam meam, Domine; Deus meus illuminat tenebras meas" - Sl 18, 29
Tempo, Evo e Eternidade (2/3)
Tempo, Evo e Eternidade
Evo em São Tomás de Aquino
Da hipótese de Santo Agostinho, São Tomás começa a sua explicação sobre o evo, na Suma Teológica. Não obstante, a sua reflexão não parte da experiência psicológica da passagem do tempo nem da sua medição, mas da eternidade, como «interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio»[1]. Para Tomás, o evo seria uma medida, entre a eternidade e o tempo, da passagem das realidades espirituais.
A primeira distinção feita por Tomás é entre o evo e a eternidade: a diferença acidental é que a eternidade não tem início nem termo, e o evo tem início mas não tem fim. De outra forma, o Aquinate explica que, tal como a eternidade, o evo não tem antes nem depois, à diferença do tempo, pois as criaturas eviternas não têm um ser tão distante da imutabilidade.
Na Suma, encontramos esta definição: «a eternidade é a medida do ser imutável»[2], sem principio nem fim: o tempo é a medida do movimento das realidades corruptíveis, isto é, caracterizadas pelo facto de o seu ser se constituir de mutabilidade. Apesar da existência de uma diferença entre eternidade e evo, este é a medida das realidades espirituais, que apesar de não terem um se mutável «têm conjunta uma certa transmutabilidade, ou em acto ou em potência».[3] Quanto mais a criação se distancia da eternidade, isto é, de Deus, mais mutável se torna o seu ser.
As criaturas eviternas são portanto os corpos celestes e os anjos. Sobre os primeiros, Tomás afirma que têm uma mutabilidade do ser «unida à mudança de local»[4]. Por exemplo, as almas dos defuntos que permanecem ainda no Purgatório mas mudarão de lugar quando entrarem no Céu. Sobre os anjos, o Aquinate diz que também têm um ser imutável mas unido à mutabilidade dos seus actos livres (razão pelo qual, por exemplo, os anjos caídos rejeitaram a Deus), pensamentos, afectos e lugares[5], pois que enquanto estão ao serviço do homem (como o anjo da guarda) seguem a história e actividade humana e conhecem o homem gradualmente. A mutabilidade local (e também afectiva) é mais visível, por exemplo, na possessão demoníaca, na qual o demónio entra e sai do corpo da pessoa e reage, também afectivamente, à oração do sacerdote; ou também no dom da bilocação, no qual o anjo assume para si, materialmente, uma forma semelhante à da pessoa. Ambas as criaturas podem ser mensuradas no tempo, «quanto ao seu ser natural»[6], como afirma o Doutor da Graça, mas «apenas no que respeita às mutações anexas»[7].
Conclui Tomás que quando se fala de antes e depois, em relação às realidades espirituais, este léxico não é mais que o resultado da capacidade humana de falar do inefável leva o homem a usar o que a inteligência conhece como analogia para o desconhecido.
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Teologia Dogmática: La Creazione
PUSC, 2016
[1] Boecio, Consol. VI, pr. 6, segundo o texto
da STh I q. 10, a. 1.
[2] STh I, q. 10, a. 5: «…, cum aeternitas
sit mensura esse permanentis,…»
[3] STh I, q. 10, a. 5
[4] Ibidem
[5] cf. Ibidem
[6] Ibidem
[7] Ibidem
Tempo, Evo e Eternidade (1/3)
Tempo, Evo e Eternidade
Introdução
Apesar da ampla reflexão sobre o tempo e a eternidade, a teologia do evo nunca foi objecto de discussão. De facto, apenas na escolástica se começa a escrever sistematicamente acerca deste tema, não obstante a presença da palavra aevum na Vulgata de São Jerónimo como tradução do termo αἰών da versão dos Setenta ou então יוס [yom = dia, idade, tempo] no texto hebraico.
Sucede também que a palavra aevum aparece apenas no livro do Eclesiástico e de Tobite, que não pertencem ao cânone hebraico e, por isso, a tradução torna-se complexa. Com o livro de Tobite não se pode confrontar porque não existe o texto hebraico. No Eclesiástico encontramos a expressão מספר אין ימי [1] [y'me 'ein mispar/m'sapér = dias sem número/livro/contagem][2], e onde apenas se podem adivinhar as vogais.
À parte da reflexão semântica, a palavra aevum é geralmente usada para significar um período de tempo que não pertence à cronologia da história e, por isso, não é medido no κρονος, sendo comumente traduzida em línguas modernas como “eternidade” ou “para sempre”. Não obstante, a escolha de Jerónimo em empregar o termo aevum não è insignificante: os hebreus e os primeiros cristãos sabem que a absoluta transcendência de Deus vai mais além de qualquer medida de tempo, até dos “dias sem contagem”, levando-o a escrever assim que «Omnis sapientia a Domino Deo est et cum illo fuit semper et est ante aevum» (Ecl 1,1)[3].
Nesta monografia, deixaremos de parte a reflexão semântica e faremos uma comparação de dois autores: de Santo Agostinho procuraremos perceber se a sua indagação acerca do tempo e da eternidade, na obra Confissões, inclui alguma referência ao evo; de São Tomás, usaremos o comentário presente na Suma Teológica para explicar melhor o que caracteriza o evo e como se pode perceber o pensamento de Agostinho à luz desta ultima doutrina.
Tempo e eternidade em Santo Agostinho
Sobre a questão do evo, sabemos que Agostinho não escreveu nada, pelo menos explicitamente. No entanto, a sua reflexão acerca do tempo e da eternidade ajudam a perceber esta coisa intermédia entre um e outro.
No livro XI das Confissões, Agostinho procura fazer uma indagação baseada na «experiencia mental»[4] que alguém faz da passagem do tempo. O autor começa por refutar a que o tempo seja, em si mesmo, o movimento dos luzeiros do céu, pois «tendo o sol parado a pedido de um homem, para que pudesse levar a seu termo uma batalha vitoriosa, o sol estava parado, mas o tempo ia avançando»[5]. Assim, o autor afirma que o tempo não é mais que uma distentionem, isto é, uma medida de extensão. Trata-se por isso de um ente de razão. Além disso, esta medida apenas se pode obter por comparação com outras, como «uma sílaba é longa, porque é o dobro da breve»[6].
Agostinho afirma ainda que esta extensão pode existir na mente sem que se verifique um evento físico: a duração de um som é medida antes de ser cantado. «A definição do tempo como extensão psíquica prepara para resolver o problema de como possa existir e coexistir o tempo fisicamente inexistente»[7]. Utilizando um evento como referência pra a medição, é também possível distinguir o antes e depois do evento, o passado e o futuro. Além disso, a mente pode reunir em si todo o tempo: o passado na memória, o presente na percepção e o futuro na imaginação.
Percebe-se assim, partindo do mesmo exemplo, que esta medição se refere à distância entre um evento e outro, sendo um evento a mudança de um estado para outro diferente do primeiro: o primeiro evento é o início da acção da voz e o outro é o fim do som. Assim, o tempo seria a medição da mutabilidade: «a linha do tempo físico é fundada sobre a mutabilidade das coisas materiais»[8].
Um outro contributo de Agostinho para esta reflexão encontra-se no capítulo XII das Confissões e o desenvolvimento na obra Comentário Literal ao Livro do Génesis. O santo afirma que existem duas criaturas que são «ausentes do tempo, embora nem uma nem outra co-eterna convosco [Deus]»[9]. Apesar de não serem co-eternas, pré-existem ao tempo. São elas o Céu e a Terra, como descritos no na Sagrada Escritura: «No princípio, Deus criou o Céu e a Terra» (Gn 1,1). O Céu refere-se à habitação de Deus e a Terra àquela matéria informe e caótica a partir da qual Deus ordenou o cosmos. A relevância desta interpretação consiste na distinção, não apenas entre o tempo e a eternidade, isto é, entre a Criação e Deus, mas também entre o tempo e o espaço, já que a Terra, por ser matéria informe, contém já temporalidade mas não ainda espacialidade: esta última só inicia-se apenas aquando da ordenação que ocorro nos “sete dias” seguintes. Desta distinção, Agostinho conclui que as criaturas espirituais «podem mudar apenas no tempo e as corporais no tempo e no espaço»[10].
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Teologia Dogmática: La Creazione
PUSC, 2016
[1] The Book of Ben Sira, B XI
Recto, 11r:5 (41:13), in www.bensira.org/navigator.php?Manuscript=B&PageNum=21 (ultimo accesso in
08/06/16)
[2] W. L. HOLLADAY (ed.), A Concise
Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament, William B Eerdmans Company,
Grand Rapids: Michigan, 1988
[3] Traduzido como: «Toda a sabedoria vem do Senhor e permanece junto Dele para
sempre.»
[4] J. Quinn,
Tempo, in Agostinho: Dizionario Enciclopedico, A.
Fitzgerald, Città Nuova, 2007, 1354
[5] AgostinHo,
Confessioni, Arnoldo Mondadori Editore, Italia, 1999, 17º ed., XI, 23
[6] Ibidem, XI, 26
[7] J. Quinn, Tempo, 1355.
Tradução de «La definizone del tempo come distensione psichica prepara a
risolvere il problema di come possa esistere e coesistere il tempo fisicamente
inesistente».
[8] Ibidem, 1357. Tradução de «la linea del tempo fisico
è fondata sulla mutabilità delle cose materiale».
[9] AgostinHo, Confessioni, XII, 12. Tradução de «esenti
dal tempo, sebbene né l’una né l’altra coeterna con te [Dio]».
[10] AGOSTINO, VIII Super Gen. ad litt. 20, in http://www.augustinus.it/latino/genesi_lettera/index2.htm
(ultimo accesso 08/08/16): «…, quod spiritalis tantummodo per tempora mutari
posset, corporalis autem per tempora et locos.»
Acerca da veneração das relíquias
Jacob, servo de Deus pela Graça de Seu Filho Jesus, com a força do Espírito Santo, saúdo-te meu querido Niquéfilo: a paz e a misericórdia do Senhor desçam sobre ti.
Bem sabeis como me retirei para o deserto a fim de empenhar o espírito a explorar os mistérios transcendentes que a razão só não alcança. Escrevo-te pois do exílio para dar conta de tão grande graça Nosso Pai me concedeu. Espectava eu pelo espelho o que cria ser a minha imagem ou reflexo. Preste a cair na vaidade, eis que do outro lado da imagem não me via mais a mim. Vi então alguém que tendo corpo não dependia mais dele, mas dele não se soltava: era um dom. Vi também que por trás dele surgia outro, e mais outro e ainda outro. Foi assim que me adverti de que havia uma multidão grande demais para tão pequeno espelho, que ainda que pequeno, me deixava ver todas aquelas as pessoas, homens e mulheres. E todos eles me viam a mim e convidavam-me a juntar-me. De tanto me aproximar quase bati no espelho, mas era tão grande a paz que irradiava dos seus rostos que nem ousava fechar os olhos. Foi então que ouvi uma voz que me dizia: “a paz esteja contigo!” Olhei à volta mas não vi alma alguma. Ao voltar o rosto de novo para o espelho vi como estava vazio. Chorei. Disse-me a voz segunda vez: “a paz esteja contigo!” Cheio de temor respondi: “deixai-me juntar-me à multidão.” Disse a voz terceira vez: “a paz esteja contigo! Juntar-te-ás se cumprires as minhas palavras.” Perguntei: “que coisa devo então fazer?” Respondeu: “o que te quero já há muito que o sabes. Agora quero que partas o espelho e entregues cada pedaço a cada pessoa que encontrares pelo caminho. Chorei por nunca mais poder ver os rostos da multidão. Parti então o espelho. No entanto, ao dar cada pedaço a cada pessoa, via também ela todos os rostos num só pedaço. Pedi então â voz que me explicasse o que significava aquela visão. Respondeu assim: “os rostos da multidão que que vias são todos aqueles que já entraram na minha glória. Também eles tiveram de partir daqui um dia. Mas ao partir deixaram para trás os pedaços que te encarreguei de distribuir, para que também outros possam, ao ver, recordar. Assim as minhas palavras chegarão a toda a terra e até aos confins do mundo. Os pedaços do espelho são as relíquias dos santos por onde todos podem contemplar a beleza que é a vida comigo. É importante que todos recebam um pedaço de espelho para que ao verem, recordem que nunca vão sós. Eu estou sempre convosco. Mas ai daquele que recusar receber o espelho por só lhe ser dado um pedaço; ai do solitário que cai: não tem outro para o levantar! Se um só é oprimido, dois já conseguem resistir a isso.” Perguntei então: “Senhor, e se faltar espelho?” Respondeu: “certamente faltará. Nesse dia, olha para a hóstia consagrada, é relíquia. E não é relíquia morta como as que os santos deixaram. A minha relíquia é relíquia viva: sou eu mesmo que lá estou!” Vi então descer à minha frente o Santíssimo Sacramento, e a alegria e a paz ao vê-Lo era tão maior que aquela nos rostos do espelho que já a memória desta me causava fastio. Era tal o brilho que irradiava que me ofuscava. Tive de fechar os olhos. Quando voltei a abrir, estava de novo em frente ao espelho, e a imagem que via era a minha.
Foi assim, meu querido Niquéfilo, que o Nosso Pai, o Seu Filho e o Espírito dos dois me mostrou a importância da veneração das relíquias dos santos. Certamente por graça Dele, conservo algumas que te envio. Que sejam para ti e todos a quem as deres não apenas espelhos mas janelas para a eternidade. Aos vaidosos exorta a que quebrem os espelhos; aos soberbos que não ponham a esperança na sua posse; aos descrentes convida-os a procurar o outro reflexo que também eu vi. Quanto a ti, ó Niquéfilo, guarda tudo quanto vi e te narrei, persevera no teu caminho, evita as contradições da falsa ciência, que alguns professam e desviaram-se da fé. Mais um pouco e aí estarei. O Senhor esteja contigo e a graça vos acompanhe.
Europa, Evangelização e Suicídio Civilizacional
(Publicação original: Europe, Evangelization, and Civilizational Suicide - Catholic World Report)
No mês passado, a Sé de Lisboa alcançou o ponto a meio caminho do dois anos de duração do Sínodo sobre o tema retirado da Exortação Apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium. Séculos atrás, os navios partiram daquela cidade portuária, a fim de levar o Evangelho a todos os pontos do globo. Em reconhecimento dos esforços de evangelização do povo português, o Papa Clemente XI elevou a diocese de Lisboa a Patriarcado em 1716. O Sínodo que se conclui a 7 de Novembro de 2016 marcará oficialmente os trezentos anos do patriarcado de Lisboa.
Hoje, os portugueses enfrentam desafios no campo da evangelização muito diferente das dos evangelizadores de há trezentos anos atrás. Muitos destes problemas derivam das agitações culturais do final de 1960. O Bispo D. Nuno Brás da Silva Martins, um dos Bispos auxiliares de Lisboa, recentemente falou com o CWR sobre essa história, a evangelização na Europa, o ateísmo, e o "suicídio civilizacional"
CWR: Um pouco de história. O D.
Nuno tinha apenas 5 anos quando se deu o Maio de 68 na França. Tem alguma
memória desses tempos e do ambiente que se vivia em Portugal/Europa logo após
essa revolução? Foi um tempo de optimismo ou pessimismo?
D. Nuno Brás: O Maio de 68 não foi apenas
no mês de Maio. Foi todo um ambiente que andava à sua volta. É claro que, com 5
anos, não tinha a percepção correcta do que estava a acontecer. Ouvia dizer que
existiam lutas estudantis por Lisboa e pouco mais. Dos tempos que se seguiram,
recordo o optimismo com que se vivia: parecia existir uma luz ao fundo do
túnel. Olhando agora para trás, percebo o ilusório que foram esses tempos,
cheios de uma esperança colocada nos homens.
CWR: Sabendo que a revolução
tinha um fermento iluminista por base, nos anos que se sucederam era possível
prever a situação social que a Europa atravessa neste momento?
D. Nuno Brás: Não sei se poderemos dizer
que o Maio de 68 foi uma revolução — pelo menos uma revolução propriamente
dita… foi mais um grande movimento social
e político iniciado pelos estudantes guiados por alguns pensadores
existencialistas (e iniciadores da pós-modernidade). Nem creio, sequer, que
tivesse por base a “razão iluminista”: pelo contrário, creio que foi uma
explosão do sentimento e do “irracional”, do “feeling”. Foi a tentativa de
deitar por terra uma sociedade que se julgava ser baseada nos preconceitos
sociais e nas regras fabricadas artificialmente, mas que hoje não podemos
deixar de reconhecer que eram de facto menos preconceituosas e menos
artificiais que aquilo que pareciam… ao mesmo tempo que o Maio de 68 trouxe
consigo tantos preconceitos e regras muito mais artificiais. Não deixa de ser
significativo que o lema do Maio de 68 fosse um “dogma” pronunciado pelos seus
fazedores, mas tido como inatacável: “é proibido proibir”.
CWR: Conseguem os cristãos
europeus, na sociedade de hoje, comunicar o Evangelho e fazer frente à
“indiferença militante” (os que não querem saber da religião) ou
”individualismo religioso” (os que lá têm a sua fé) com a qual são confrontados?
D. Nuno Brás: Deus deu-nos a graça de viver
neste nosso tempo. Isso significa que confia em nós e que nos dá hoje — como
deu aos cristãos de outros tempos — a força, a ousadia e a graça necessários
para anunciar o Evangelho. Talvez a indiferença tenha existido sempre (basta
ler alguns escritos pastorais de Santo Agostinho e de tantos outros santos e
pensadores de tempos passados). Só que, socialmente, os habitantes da Europa
(salvo algumas excepções) eram todos baptizados e praticavam actos exteriores
de piedade… A cultura envolvente era
claramente marcada pela fé. Não me parece que devamos olhar para o passado como
um “tempo perfeito”. Cabe-nos a nós a tarefa de evangelizar este nosso mundo, e
para isso — não tenho dúvidas — Deus dá-nos todo o Seu auxílio.
CWR: O Cardeal Sarah afirmava,
na apresentação do seu livro “Deus ou Nada”, que os missionários africanos
encontrarão na Europa uma realidade nova que não existia quando os missionários
europeus chegaram a África: o ateísmo.
D. Nuno Brás: É verdade. Não que não tenham
existido sempre ateus (veja-se o Sal. 13). Mas não existiam como “sistema de
vida organizado”. Essa é, infelizmente, uma marca da Europa dos nossos dias.
Contudo, mais preocupante que o ateísmo como sistema de pensamento organizado é
a indiferença, ou seja: o modo de viver como se Deus não existisse, mesmo que,
depois, se realize um ou outro acto religioso.
CWR: A primeira evangelização
foi feita por povos sempre considerados “desenvolvidos”. A segunda
evangelização será pelos povos ditos “subdesenvolvidos”. Porquê esta inversão?
D. Nuno Brás: Resta saber o critério do que
consideramos ser o “desenvolvimento”. Os primeiros cristãos (em particular os
Doze) não eram propriamente parte do “mundo civilizado”, elitista e “culto”, de
então… Não creio que se possa usar essa grelha de leitura. Nem é dito que o
mundo europeu contemporâneo seja “desenvolvido” — é-o a nível da técnica e dos
conhecimentos científicos, mas deixa muito a desejar quanto à humanidade! A
segunda evangelização será feita por aqueles que vivem a fé com todo o entusiasmo
e seriedade, e se deixaram converter por Jesus.
CWR: Generalizando, o progresso
científico tornou-nos orgulhosos. Estaremos dispostos a acolher o κεριγμα dos
missionários desses países “subdesenvolvidos?
D. Nuno Brás: O orgulho da nossa
civilização (marcada pela ciência e, sobretudo, pela técnica) é muito
semelhante ao orgulho dos romanos do séc. I quanto à superioridade do seu
mundo. Existem, aliás, muitas semelhanças entre estes dois universos (o nosso
mundo ocidental e o mundo romano decadente dos primeiros séculos do
cristianismo). A ousadia do querigma continua a ser aquela que tem fonte em
Deus, Ele que quer salvar o mundo por meio da loucura do querigma, como diz S.
Paulo.
CWR: Conseguirão comunicar
eficazmente o Evangelho?
D. Nuno Brás: O Evangelho é, antes de mais,
confirmado pelo testemunho de vida, pelo testemunho de quem se deixa
diariamente converter pelo Senhor. Mais do que técnicas, é o anúncio do amor
infinito, da misericórdia de Deus pelas pessoas concretas. É Deus quem está
presente na pessoa daquele que anuncia e no coração daquele que escuta o
anúncio, e é daí que o Evangelho retira a sua eficácia.
CWR: Há dias escreveu no artigo
para o Jornal Voz da Verdade que está a ocorrer uma “implosão” da Europa. Como
define esta “implosão”?
D. Nuno Brás: É uma espécie de “suicídio
civilizacional”. Percebemos que o caminho que percorremos não conduz a nenhum
outro lugar que não à morte, ao desaparecimento do modo de vida europeu como o
conhecemos hoje; e, no entanto, persistimos teimosamente em percorrê-lo.
Acabaremos por desaparecer. Mas não olho esse desaparecimento de um modo
dramático. A um mundo que termina, sucede outro que começa: a lição de Santo
Agostinho continua a ser válida nos nossos tempos.
CWR: Será a “implosão” da Europa
ser apenas a transformação no sentido politico/económico/social ou apagaremos
totalmente a base cristã que está na fundação da Europa?
D. Nuno Brás: A resposta a essa questão
depende sempre da seriedade da vida cristã que vivermos. Depende daquilo a que
o Papa Bento XVI chama as “minorias criativas”, capazes de dar início a novas realidades,
e de marcar a vida colectiva, de ser o motor de atitudes novas também em termos sociais e até políticos e
económicos. Tenho a certeza de que a fé não desaparecerá na Europa porque tenho
encontrado tantas dessas “minorias”.
CWR: Serão os recentes atentados
em França ou a instabilidade da situação política em Portugal sinais dessa
implosão? Podemos prever mais alguns sinais?
D. Nuno Brás: Não tenho dúvidas disso. Os
terroristas de Paris eram europeus. E os deputados que no nosso Parlamento
aprovam leis anti-vida e anti-família também são europeus. São sinais de um
modo de viver que vai perdendo o entusiasmo e a sua identidade, e que caminha
para o abismo. Não ficarei com grandes saudades deste modo de viver sem
esperança e sem metas humanas.
CWR: Os refugiados que acorrem à
Europa têm razões de esperança ou vêm iludidos? E nós, cristãos católicos,
temos razões para esperar uma Europa mais sólida e consciente dos seus
alicerces cristãos?
D. Nuno Brás: Depende daquilo que eles
esperam da Europa. Creio que, para já, querem viver e sonham com um trabalho e
algum dinheiro, com uma vida segura e mais tranquila. Isso creio que podemos
oferecer. Quanto à fé, os cristãos da Síria e de alguns outros países têm muito
a ensinar-nos. Mas nós também não podemos deixar de os acolher nas nossas comunidades
e de lhes oferecer o testemunho da nossa vida de fé. Como já disse, tenho
encontrado muitas comunidades e muitos cristãos que procuram caminhar
seriamente na vida cristã. Mesmo que o “cristianismo cultural” desapareça,
permanecerá sempre o cristianismo vivido, que há-de procurar também ser uma
nova cultura.
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