Tempo, Evo e Eternidade (2/3)


Tempo, Evo e Eternidade





Evo em São Tomás de Aquino

Da hipótese de Santo Agostinho, São Tomás começa a sua explicação sobre o evo, na Suma Teológica. Não obstante, a sua reflexão não parte da experiência psicológica da passagem do tempo nem da sua medição, mas da eternidade, como «interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio»[1]. Para Tomás, o evo seria uma medida, entre a eternidade e o tempo, da passagem das realidades espirituais.

A primeira distinção feita por Tomás é entre o evo e a eternidade: a diferença acidental é que a eternidade não tem início nem termo, e o evo tem início mas não tem fim. De outra forma, o Aquinate explica que, tal como a eternidade, o evo não tem antes nem depois, à diferença do tempo, pois as criaturas eviternas não têm um ser tão distante da imutabilidade.

Na Suma, encontramos esta definição: «a eternidade é a medida do ser imutável»[2], sem principio nem fim: o tempo é a medida do movimento das realidades corruptíveis, isto é, caracterizadas pelo facto de o seu ser se constituir de mutabilidade. Apesar da existência de uma diferença entre eternidade e evo, este é a medida das realidades espirituais, que apesar de não terem um se mutável «têm conjunta uma certa transmutabilidade, ou em acto ou em potência».[3] Quanto mais a criação se distancia da eternidade, isto é, de Deus, mais mutável se torna o seu ser.

As criaturas eviternas são portanto os corpos celestes e os anjos. Sobre os primeiros, Tomás afirma que têm uma mutabilidade do ser «unida à mudança de local»[4]. Por exemplo, as almas dos defuntos que permanecem ainda no Purgatório mas mudarão de lugar quando entrarem no Céu. Sobre os anjos, o Aquinate diz que também têm um ser imutável mas unido à mutabilidade dos seus actos livres (razão pelo qual, por exemplo, os anjos caídos rejeitaram a Deus), pensamentos, afectos e lugares[5], pois que enquanto estão ao serviço do homem (como o anjo da guarda) seguem a história e actividade humana e conhecem o homem gradualmente. A mutabilidade local (e também afectiva) é mais visível, por exemplo, na possessão demoníaca, na qual o demónio entra e sai do corpo da pessoa e reage, também afectivamente, à oração do sacerdote; ou também no dom da bilocação, no qual o anjo assume para si, materialmente, uma forma semelhante à da pessoa. Ambas as criaturas podem ser mensuradas no tempo, «quanto ao seu ser natural»[6], como afirma o Doutor da Graça, mas «apenas no que respeita às mutações anexas»[7].

Conclui Tomás que quando se fala de antes e depois, em relação às realidades espirituais, este léxico não é mais que o resultado da capacidade humana de falar do inefável leva o homem a usar o que a inteligência conhece como analogia para o desconhecido.



Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Teologia Dogmática: La Creazione
PUSC, 2016

[1] Boecio, Consol. VI, pr. 6, segundo o texto da STh I q. 10, a. 1.
[2] STh I, q. 10, a. 5: «…, cum aeternitas sit mensura esse permanentis,…»
[3] STh I, q. 10, a. 5
[4] Ibidem
[5] cf. Ibidem
[6] Ibidem
[7] Ibidem

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