Tempo, Evo e Eternidade
Introdução
Apesar da ampla reflexão sobre o tempo e a eternidade, a teologia do evo nunca foi objecto de discussão. De facto, apenas na escolástica se começa a escrever sistematicamente acerca deste tema, não obstante a presença da palavra aevum na Vulgata de São Jerónimo como tradução do termo αἰών da versão dos Setenta ou então יוס [yom = dia, idade, tempo] no texto hebraico.
Sucede também que a palavra aevum aparece apenas no livro do Eclesiástico e de Tobite, que não pertencem ao cânone hebraico e, por isso, a tradução torna-se complexa. Com o livro de Tobite não se pode confrontar porque não existe o texto hebraico. No Eclesiástico encontramos a expressão מספר אין ימי [1] [y'me 'ein mispar/m'sapér = dias sem número/livro/contagem][2], e onde apenas se podem adivinhar as vogais.
À parte da reflexão semântica, a palavra aevum é geralmente usada para significar um período de tempo que não pertence à cronologia da história e, por isso, não é medido no κρονος, sendo comumente traduzida em línguas modernas como “eternidade” ou “para sempre”. Não obstante, a escolha de Jerónimo em empregar o termo aevum não è insignificante: os hebreus e os primeiros cristãos sabem que a absoluta transcendência de Deus vai mais além de qualquer medida de tempo, até dos “dias sem contagem”, levando-o a escrever assim que «Omnis sapientia a Domino Deo est et cum illo fuit semper et est ante aevum» (Ecl 1,1)[3].
Nesta monografia, deixaremos de parte a reflexão semântica e faremos uma comparação de dois autores: de Santo Agostinho procuraremos perceber se a sua indagação acerca do tempo e da eternidade, na obra Confissões, inclui alguma referência ao evo; de São Tomás, usaremos o comentário presente na Suma Teológica para explicar melhor o que caracteriza o evo e como se pode perceber o pensamento de Agostinho à luz desta ultima doutrina.
Tempo e eternidade em Santo Agostinho
Sobre a questão do evo, sabemos que Agostinho não escreveu nada, pelo menos explicitamente. No entanto, a sua reflexão acerca do tempo e da eternidade ajudam a perceber esta coisa intermédia entre um e outro.
No livro XI das Confissões, Agostinho procura fazer uma indagação baseada na «experiencia mental»[4] que alguém faz da passagem do tempo. O autor começa por refutar a que o tempo seja, em si mesmo, o movimento dos luzeiros do céu, pois «tendo o sol parado a pedido de um homem, para que pudesse levar a seu termo uma batalha vitoriosa, o sol estava parado, mas o tempo ia avançando»[5]. Assim, o autor afirma que o tempo não é mais que uma distentionem, isto é, uma medida de extensão. Trata-se por isso de um ente de razão. Além disso, esta medida apenas se pode obter por comparação com outras, como «uma sílaba é longa, porque é o dobro da breve»[6].
Agostinho afirma ainda que esta extensão pode existir na mente sem que se verifique um evento físico: a duração de um som é medida antes de ser cantado. «A definição do tempo como extensão psíquica prepara para resolver o problema de como possa existir e coexistir o tempo fisicamente inexistente»[7]. Utilizando um evento como referência pra a medição, é também possível distinguir o antes e depois do evento, o passado e o futuro. Além disso, a mente pode reunir em si todo o tempo: o passado na memória, o presente na percepção e o futuro na imaginação.
Percebe-se assim, partindo do mesmo exemplo, que esta medição se refere à distância entre um evento e outro, sendo um evento a mudança de um estado para outro diferente do primeiro: o primeiro evento é o início da acção da voz e o outro é o fim do som. Assim, o tempo seria a medição da mutabilidade: «a linha do tempo físico é fundada sobre a mutabilidade das coisas materiais»[8].
Um outro contributo de Agostinho para esta reflexão encontra-se no capítulo XII das Confissões e o desenvolvimento na obra Comentário Literal ao Livro do Génesis. O santo afirma que existem duas criaturas que são «ausentes do tempo, embora nem uma nem outra co-eterna convosco [Deus]»[9]. Apesar de não serem co-eternas, pré-existem ao tempo. São elas o Céu e a Terra, como descritos no na Sagrada Escritura: «No princípio, Deus criou o Céu e a Terra» (Gn 1,1). O Céu refere-se à habitação de Deus e a Terra àquela matéria informe e caótica a partir da qual Deus ordenou o cosmos. A relevância desta interpretação consiste na distinção, não apenas entre o tempo e a eternidade, isto é, entre a Criação e Deus, mas também entre o tempo e o espaço, já que a Terra, por ser matéria informe, contém já temporalidade mas não ainda espacialidade: esta última só inicia-se apenas aquando da ordenação que ocorro nos “sete dias” seguintes. Desta distinção, Agostinho conclui que as criaturas espirituais «podem mudar apenas no tempo e as corporais no tempo e no espaço»[10].
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Teologia Dogmática: La Creazione
PUSC, 2016
[1] The Book of Ben Sira, B XI
Recto, 11r:5 (41:13), in www.bensira.org/navigator.php?Manuscript=B&PageNum=21 (ultimo accesso in
08/06/16)
[2] W. L. HOLLADAY (ed.), A Concise
Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament, William B Eerdmans Company,
Grand Rapids: Michigan, 1988
[3] Traduzido como: «Toda a sabedoria vem do Senhor e permanece junto Dele para
sempre.»
[4] J. Quinn,
Tempo, in Agostinho: Dizionario Enciclopedico, A.
Fitzgerald, Città Nuova, 2007, 1354
[5] AgostinHo,
Confessioni, Arnoldo Mondadori Editore, Italia, 1999, 17º ed., XI, 23
[6] Ibidem, XI, 26
[7] J. Quinn, Tempo, 1355.
Tradução de «La definizone del tempo come distensione psichica prepara a
risolvere il problema di come possa esistere e coesistere il tempo fisicamente
inesistente».
[8] Ibidem, 1357. Tradução de «la linea del tempo fisico
è fondata sulla mutabilità delle cose materiale».
[9] AgostinHo, Confessioni, XII, 12. Tradução de «esenti
dal tempo, sebbene né l’una né l’altra coeterna con te [Dio]».
[10] AGOSTINO, VIII Super Gen. ad litt. 20, in http://www.augustinus.it/latino/genesi_lettera/index2.htm
(ultimo accesso 08/08/16): «…, quod spiritalis tantummodo per tempora mutari
posset, corporalis autem per tempora et locos.»

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