Jacob, servo de Deus pela Graça de Seu Filho Jesus, com a força do Espírito Santo, saúdo-te meu querido Niquéfilo: a paz e a misericórdia do Senhor desçam sobre ti.
Bem sabeis como me retirei para o deserto a fim de empenhar o espírito a explorar os mistérios transcendentes que a razão só não alcança. Escrevo-te pois do exílio para dar conta de tão grande graça Nosso Pai me concedeu. Espectava eu pelo espelho o que cria ser a minha imagem ou reflexo. Preste a cair na vaidade, eis que do outro lado da imagem não me via mais a mim. Vi então alguém que tendo corpo não dependia mais dele, mas dele não se soltava: era um dom. Vi também que por trás dele surgia outro, e mais outro e ainda outro. Foi assim que me adverti de que havia uma multidão grande demais para tão pequeno espelho, que ainda que pequeno, me deixava ver todas aquelas as pessoas, homens e mulheres. E todos eles me viam a mim e convidavam-me a juntar-me. De tanto me aproximar quase bati no espelho, mas era tão grande a paz que irradiava dos seus rostos que nem ousava fechar os olhos. Foi então que ouvi uma voz que me dizia: “a paz esteja contigo!” Olhei à volta mas não vi alma alguma. Ao voltar o rosto de novo para o espelho vi como estava vazio. Chorei. Disse-me a voz segunda vez: “a paz esteja contigo!” Cheio de temor respondi: “deixai-me juntar-me à multidão.” Disse a voz terceira vez: “a paz esteja contigo! Juntar-te-ás se cumprires as minhas palavras.” Perguntei: “que coisa devo então fazer?” Respondeu: “o que te quero já há muito que o sabes. Agora quero que partas o espelho e entregues cada pedaço a cada pessoa que encontrares pelo caminho. Chorei por nunca mais poder ver os rostos da multidão. Parti então o espelho. No entanto, ao dar cada pedaço a cada pessoa, via também ela todos os rostos num só pedaço. Pedi então â voz que me explicasse o que significava aquela visão. Respondeu assim: “os rostos da multidão que que vias são todos aqueles que já entraram na minha glória. Também eles tiveram de partir daqui um dia. Mas ao partir deixaram para trás os pedaços que te encarreguei de distribuir, para que também outros possam, ao ver, recordar. Assim as minhas palavras chegarão a toda a terra e até aos confins do mundo. Os pedaços do espelho são as relíquias dos santos por onde todos podem contemplar a beleza que é a vida comigo. É importante que todos recebam um pedaço de espelho para que ao verem, recordem que nunca vão sós. Eu estou sempre convosco. Mas ai daquele que recusar receber o espelho por só lhe ser dado um pedaço; ai do solitário que cai: não tem outro para o levantar! Se um só é oprimido, dois já conseguem resistir a isso.” Perguntei então: “Senhor, e se faltar espelho?” Respondeu: “certamente faltará. Nesse dia, olha para a hóstia consagrada, é relíquia. E não é relíquia morta como as que os santos deixaram. A minha relíquia é relíquia viva: sou eu mesmo que lá estou!” Vi então descer à minha frente o Santíssimo Sacramento, e a alegria e a paz ao vê-Lo era tão maior que aquela nos rostos do espelho que já a memória desta me causava fastio. Era tal o brilho que irradiava que me ofuscava. Tive de fechar os olhos. Quando voltei a abrir, estava de novo em frente ao espelho, e a imagem que via era a minha.
Foi assim, meu querido Niquéfilo, que o Nosso Pai, o Seu Filho e o Espírito dos dois me mostrou a importância da veneração das relíquias dos santos. Certamente por graça Dele, conservo algumas que te envio. Que sejam para ti e todos a quem as deres não apenas espelhos mas janelas para a eternidade. Aos vaidosos exorta a que quebrem os espelhos; aos soberbos que não ponham a esperança na sua posse; aos descrentes convida-os a procurar o outro reflexo que também eu vi. Quanto a ti, ó Niquéfilo, guarda tudo quanto vi e te narrei, persevera no teu caminho, evita as contradições da falsa ciência, que alguns professam e desviaram-se da fé. Mais um pouco e aí estarei. O Senhor esteja contigo e a graça vos acompanhe.

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