No mês passado, a Sé de Lisboa alcançou o ponto a meio caminho do dois anos de duração do Sínodo sobre o tema retirado da Exortação Apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium. Séculos atrás, os navios partiram daquela cidade portuária, a fim de levar o Evangelho a todos os pontos do globo. Em reconhecimento dos esforços de evangelização do povo português, o Papa Clemente XI elevou a diocese de Lisboa a Patriarcado em 1716. O Sínodo que se conclui a 7 de Novembro de 2016 marcará oficialmente os trezentos anos do patriarcado de Lisboa.
Hoje, os portugueses enfrentam desafios no campo da evangelização muito diferente das dos evangelizadores de há trezentos anos atrás. Muitos destes problemas derivam das agitações culturais do final de 1960. O Bispo D. Nuno Brás da Silva Martins, um dos Bispos auxiliares de Lisboa, recentemente falou com o CWR sobre essa história, a evangelização na Europa, o ateísmo, e o "suicídio civilizacional"
CWR: Um pouco de história. O D.
Nuno tinha apenas 5 anos quando se deu o Maio de 68 na França. Tem alguma
memória desses tempos e do ambiente que se vivia em Portugal/Europa logo após
essa revolução? Foi um tempo de optimismo ou pessimismo?
D. Nuno Brás: O Maio de 68 não foi apenas
no mês de Maio. Foi todo um ambiente que andava à sua volta. É claro que, com 5
anos, não tinha a percepção correcta do que estava a acontecer. Ouvia dizer que
existiam lutas estudantis por Lisboa e pouco mais. Dos tempos que se seguiram,
recordo o optimismo com que se vivia: parecia existir uma luz ao fundo do
túnel. Olhando agora para trás, percebo o ilusório que foram esses tempos,
cheios de uma esperança colocada nos homens.
CWR: Sabendo que a revolução
tinha um fermento iluminista por base, nos anos que se sucederam era possível
prever a situação social que a Europa atravessa neste momento?
D. Nuno Brás: Não sei se poderemos dizer
que o Maio de 68 foi uma revolução — pelo menos uma revolução propriamente
dita… foi mais um grande movimento social
e político iniciado pelos estudantes guiados por alguns pensadores
existencialistas (e iniciadores da pós-modernidade). Nem creio, sequer, que
tivesse por base a “razão iluminista”: pelo contrário, creio que foi uma
explosão do sentimento e do “irracional”, do “feeling”. Foi a tentativa de
deitar por terra uma sociedade que se julgava ser baseada nos preconceitos
sociais e nas regras fabricadas artificialmente, mas que hoje não podemos
deixar de reconhecer que eram de facto menos preconceituosas e menos
artificiais que aquilo que pareciam… ao mesmo tempo que o Maio de 68 trouxe
consigo tantos preconceitos e regras muito mais artificiais. Não deixa de ser
significativo que o lema do Maio de 68 fosse um “dogma” pronunciado pelos seus
fazedores, mas tido como inatacável: “é proibido proibir”.
CWR: Conseguem os cristãos
europeus, na sociedade de hoje, comunicar o Evangelho e fazer frente à
“indiferença militante” (os que não querem saber da religião) ou
”individualismo religioso” (os que lá têm a sua fé) com a qual são confrontados?
D. Nuno Brás: Deus deu-nos a graça de viver
neste nosso tempo. Isso significa que confia em nós e que nos dá hoje — como
deu aos cristãos de outros tempos — a força, a ousadia e a graça necessários
para anunciar o Evangelho. Talvez a indiferença tenha existido sempre (basta
ler alguns escritos pastorais de Santo Agostinho e de tantos outros santos e
pensadores de tempos passados). Só que, socialmente, os habitantes da Europa
(salvo algumas excepções) eram todos baptizados e praticavam actos exteriores
de piedade… A cultura envolvente era
claramente marcada pela fé. Não me parece que devamos olhar para o passado como
um “tempo perfeito”. Cabe-nos a nós a tarefa de evangelizar este nosso mundo, e
para isso — não tenho dúvidas — Deus dá-nos todo o Seu auxílio.
CWR: O Cardeal Sarah afirmava,
na apresentação do seu livro “Deus ou Nada”, que os missionários africanos
encontrarão na Europa uma realidade nova que não existia quando os missionários
europeus chegaram a África: o ateísmo.
D. Nuno Brás: É verdade. Não que não tenham
existido sempre ateus (veja-se o Sal. 13). Mas não existiam como “sistema de
vida organizado”. Essa é, infelizmente, uma marca da Europa dos nossos dias.
Contudo, mais preocupante que o ateísmo como sistema de pensamento organizado é
a indiferença, ou seja: o modo de viver como se Deus não existisse, mesmo que,
depois, se realize um ou outro acto religioso.
CWR: A primeira evangelização
foi feita por povos sempre considerados “desenvolvidos”. A segunda
evangelização será pelos povos ditos “subdesenvolvidos”. Porquê esta inversão?
D. Nuno Brás: Resta saber o critério do que
consideramos ser o “desenvolvimento”. Os primeiros cristãos (em particular os
Doze) não eram propriamente parte do “mundo civilizado”, elitista e “culto”, de
então… Não creio que se possa usar essa grelha de leitura. Nem é dito que o
mundo europeu contemporâneo seja “desenvolvido” — é-o a nível da técnica e dos
conhecimentos científicos, mas deixa muito a desejar quanto à humanidade! A
segunda evangelização será feita por aqueles que vivem a fé com todo o entusiasmo
e seriedade, e se deixaram converter por Jesus.
CWR: Generalizando, o progresso
científico tornou-nos orgulhosos. Estaremos dispostos a acolher o κεριγμα dos
missionários desses países “subdesenvolvidos?
D. Nuno Brás: O orgulho da nossa
civilização (marcada pela ciência e, sobretudo, pela técnica) é muito
semelhante ao orgulho dos romanos do séc. I quanto à superioridade do seu
mundo. Existem, aliás, muitas semelhanças entre estes dois universos (o nosso
mundo ocidental e o mundo romano decadente dos primeiros séculos do
cristianismo). A ousadia do querigma continua a ser aquela que tem fonte em
Deus, Ele que quer salvar o mundo por meio da loucura do querigma, como diz S.
Paulo.
CWR: Conseguirão comunicar
eficazmente o Evangelho?
D. Nuno Brás: O Evangelho é, antes de mais,
confirmado pelo testemunho de vida, pelo testemunho de quem se deixa
diariamente converter pelo Senhor. Mais do que técnicas, é o anúncio do amor
infinito, da misericórdia de Deus pelas pessoas concretas. É Deus quem está
presente na pessoa daquele que anuncia e no coração daquele que escuta o
anúncio, e é daí que o Evangelho retira a sua eficácia.
CWR: Há dias escreveu no artigo
para o Jornal Voz da Verdade que está a ocorrer uma “implosão” da Europa. Como
define esta “implosão”?
D. Nuno Brás: É uma espécie de “suicídio
civilizacional”. Percebemos que o caminho que percorremos não conduz a nenhum
outro lugar que não à morte, ao desaparecimento do modo de vida europeu como o
conhecemos hoje; e, no entanto, persistimos teimosamente em percorrê-lo.
Acabaremos por desaparecer. Mas não olho esse desaparecimento de um modo
dramático. A um mundo que termina, sucede outro que começa: a lição de Santo
Agostinho continua a ser válida nos nossos tempos.
CWR: Será a “implosão” da Europa
ser apenas a transformação no sentido politico/económico/social ou apagaremos
totalmente a base cristã que está na fundação da Europa?
D. Nuno Brás: A resposta a essa questão
depende sempre da seriedade da vida cristã que vivermos. Depende daquilo a que
o Papa Bento XVI chama as “minorias criativas”, capazes de dar início a novas realidades,
e de marcar a vida colectiva, de ser o motor de atitudes novas também em termos sociais e até políticos e
económicos. Tenho a certeza de que a fé não desaparecerá na Europa porque tenho
encontrado tantas dessas “minorias”.
CWR: Serão os recentes atentados
em França ou a instabilidade da situação política em Portugal sinais dessa
implosão? Podemos prever mais alguns sinais?
D. Nuno Brás: Não tenho dúvidas disso. Os
terroristas de Paris eram europeus. E os deputados que no nosso Parlamento
aprovam leis anti-vida e anti-família também são europeus. São sinais de um
modo de viver que vai perdendo o entusiasmo e a sua identidade, e que caminha
para o abismo. Não ficarei com grandes saudades deste modo de viver sem
esperança e sem metas humanas.
CWR: Os refugiados que acorrem à
Europa têm razões de esperança ou vêm iludidos? E nós, cristãos católicos,
temos razões para esperar uma Europa mais sólida e consciente dos seus
alicerces cristãos?
D. Nuno Brás: Depende daquilo que eles
esperam da Europa. Creio que, para já, querem viver e sonham com um trabalho e
algum dinheiro, com uma vida segura e mais tranquila. Isso creio que podemos
oferecer. Quanto à fé, os cristãos da Síria e de alguns outros países têm muito
a ensinar-nos. Mas nós também não podemos deixar de os acolher nas nossas comunidades
e de lhes oferecer o testemunho da nossa vida de fé. Como já disse, tenho
encontrado muitas comunidades e muitos cristãos que procuram caminhar
seriamente na vida cristã. Mesmo que o “cristianismo cultural” desapareça,
permanecerá sempre o cristianismo vivido, que há-de procurar também ser uma
nova cultura.
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