A ἀρχή em Tolkien: Influência pitagórica no mito “O Silmarillion - Ainulindalë” (1/2)


Ainulindalë ou a música dos Ainur



Em O Silmarillion, Eru convida os Ainur a comporem temas musicais. É a partir desses temas que vai imaginar o mundo que será criado mais tarde. Depois da música divina, o cosmos ainda não existe materialmente, mas já está presente nos desígnios de Ilúvatar, já é[1] na sua inteligência.

Essa música, aqui tocada pelos Ainur, este «som de intermináveis e intermutáveis melodias entretecidas em harmonia»[2], tinha já sido descoberta por Pitágoras aquando da percepção de razões harmónicas nos sons das cordas musicais. Ele demonstrou que, numa corda com um determinado som fundamental, fazer vibrar apenas uma secção da corda produz uma tonalidade diferente, uma nota. Também, que a conjugação de uns tons é sonantes e de outros é dissonante. Ao conjunto sonante de três ou mais tons chama-se acorde. São os acordes que dão harmonia à música. Não há acorde se não houver relação numérica definida entre as notas musicais.

«Graças aos pitagóricos, recebeu uma fundamentação ontológica, em virtude da sua inserção na ordem do ser. O mito atribuíra antes à música uma origem divina; a razão incrusta-a agora numa metafísica da acústica»[3].

Na narração, a mudança aparentemente mais insignificante nesta polifonia cósmica, como por exemplo a mudança de meio-tom numa nota, significaria o absoluto da mudança na relação entre as notas e a composição de outro acorde[4]. A consequência seria criar outra coisa no lugar da que foi criada. Mais ainda quando esta tem lugar num acorde «mais profundo que o abismo, mais alto do que o firmamento»[5].

«O absoluto experimenta-se na música, revestida agora de dignidade metafísica, (…) única a expressar a “quinta-essência da vida”, o “em-si do mundo”; é a “reprodução da vontade” alógica e destruidora, do princípio e fundamento absoluto da realidade.»[6]




Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Antiga
FT-UCP, 2013

[1] Já existe, já está concebido, já foi imaginado, etc.
[2] Tolkien, J. R. R., O Silmarillion, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2002, 7ª edição, 15
[3] Morão, A., "Música", in Logos, Verbo, 1041
[4] Por exemplo, a diferença de 20Hz de um Fá(4) para um Fá(4)#, muda um acorde de Ré menor para maior
[5] Tolkien, J. R. R., O Silmarillion, 17
[6] Morão, A., "Música”, 1051 

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