A ἀρχή em Tolkien: Influência pitagórica no mito “O Silmarillion - Ainulindalë” (2/2)


Influência das relações entre personagens




Apenas Eru é o Único e todos os outros seres são em relação com ele e com os outros seres. Não obstante, quando os Ainur se unem em harmonia, adquirem uma compreensão mais profunda uns dos outros e da mente de Eru. É na relação de uns com os outros que podem compor um som tão poderoso que transpõe os limites de Arda e enche o άπείρων do vazio.

Narra ainda o autor que, ao início, os Ainur tocavam sozinhos ou em pequenos grupos por só compreenderem uma parte da mente de Ilúvatar e ao ouvir os outros é que podiam ir compreendendo mais e aumentar a harmonia. Da mesma forma que nos acordes, ouvir um ou outro seu semelhante, faria um Ainu compreender uma parte da mente de Eru ou outra distinta, já que «a alma do homem e a música enquanto som podem entrar em sintonia com a ordem das coisas e com a “música das esferas”.»[1]

Assim também um homem é modelado na relação com outros e, dessa forma, evoluir para se tornar um ser distinto, conforme o que aprende, tal como o bebé que depois de nascer reconhece a voz da mãe por já a ter ouvido quando ainda estava no seu ventre. «Desde o início, a voz da mãe assinala o recém-nascido com a interrogação acerca do sentido, ligando-o a algo que tem a marca do definitivo. (…) Os sons, como o toque e o sorriso, acariciam-lhe o corpo e fazem-lhe vibrar a alma.»[2]

Na sua cobiça Melkor, quer sobrepor-se ao Único e dar vida a coisas suas, embora a «flama imperecível»[3] não se possa encontrar se for procurada numa “relação-zero” com este deus descrito pelo autor, numa não-relação com o Criador. Melkor procura o fogo de criação nos «lugares vazios»[4] onde não há Ilúvatar, e por isso não a encontra.




Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Antiga

FT-UCP, 2013

[1] Morão, A., "Música", pp. 1041
[2] Correia, J. F., "Educar para a vida que é eterna", Thologica 48 (2013), pp. 32
[3] Tolkien, J. R. R., O Silmarillion, pp. 16
[4] Ibidem, 16

Sem comentários:

Enviar um comentário