Cristo, plenitude da Revelação (1/3)



O Deus de Moisés


«Prenderás o véu nos ganchos e, neste recinto protegido pelo véu, depositarás a Arca do testemunho. O véu marcará para vós a separação entre o santuário e o Santo dos Santos»
(Ex 26, 33)


Desde Abraão, e presente em toda a história da salvação do povo judaico, encontramos esta dimensão misteriosa de um Deus que esconde a Sua verdadeira imagem. Não era possível aos homens de então contemplar todo o esplendor de Deus. Conhecê-Lo, saber o Seu nome e ver o Seu rosto, significava uma determinação de Deus pelo Homem, como se fosse o próprio Homem o criador e não contrário.

Por outro lado, a contemplação de Deus provocava uma tal transformação no Homem, que este não sobreviveria depois de O ver face a face. Diz-nos a tradição que Moisés só o podia ver de costas depois de a nuvem passar, para que não morresse, tal como quando se encontrava com Ele no Santo dos Santos, na Tenda da Reunião, tinha de cobrir o rosto para que os demais do seu povo não ferissem os olhos com o brilho que dele provinha.

O véu, colocado à frente da Arca da Aliança, servia então como barreira entre o Homem e Deus, para não subjugar Deus ao Homem nem impedir que este pudesse prestar o devido louvor ao Senhor. Essa barreira só podia ser transposta uma vez ao ano e pelo Sumo Sacerdote e, apenas depois de incensar o tabernáculo, para que o sacerdote não morresse por olhar quando descesse a Shekinah, a presença de Deus na coluna de fogo que guiava o povo pelo deserto[1]. Mais tarde, o véu será colocado com o mesmo efeito, no templo de Salomão.

No Antigo Testamento a teofania nunca é completa: Javé serve-se sempre de uma presença sacramental mas nunca revela totalmente a Sua natureza própria. Com Moisés, começa por se mostrar numa sarça que ardia sem se consumir[2]. No diálogo que se segue, em que Deus chama Moisés a ser o Seu instrumento de libertação do povo, cativo na terra do Egipto, revela-lhe algumas das Suas características.

Primeiramente revela-se «em contraposição à tendência pagã do numen locale[3], da divindade local, ou seja condicionada e limitada localmente»[4]. Ele é o Deus dos antepassados, de Abraão, Isaac e Jacob, que permanece através de todo o tempo e em toda a parte.

Um segundo elemento é a continuação do cumprimento da aliança feita no início dos tempos. Este é o Deus da promessa, que não só sustenta o povo durante a tribulação e por isso desce para o libertar[5], como também o vai conduzir pelo deserto até à terra prometida, para um fim definitivo, «é o Deus da esperança colocada no futuro, um rumo que é irreversível.»[6]

Por fim, temos a revelação do nome de Deus: יהוה, traduzido geralmente por «Eu Sou aquele que Sou». Se por um lado, a revelação do nome podia dar a Moisés algum domínio sobre a própria divindade por O tornar nominável e criar uma relação de acessibilidade a Ele, por outro, mantém Deus num mistério. Compreendemos apenas que Ele é o que é, ou seja, permanente e não transitório e que não se confunde com os outros deuses locais que tinham nomes que os definiam.

A plenitude da revelação só acontecerá séculos mais tarde, quando Deus, incarnado na pessoa de Jesus, revelar ao Homem a sua própria natureza de criatura, criada à Sua imagem e semelhança.





Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Introdução ao Cristianismo
FT-UCP, 2014


[1] cf. Ex 13, 21
[2] cf. Ex 3, 2
[3] Divindade local
[4] J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, Herder, São Paulo, 1970, 50
[5] cf. Ex 3, 8
[6] J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, 51 

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