“Rasgou-se o véu do templo”
«Cobriu-se a terra de luto, rasgou-se no templo o véu, até as pedras se abriram quando o Salvador morreu.» (Hino da Hora Intermédia, Sexta-Feira IV)
Depois do pecado dos nossos primeiros pais, Deus estabelece uma aliança com Adão e com todo o Seus povo daí em diante, para os libertar da morte e os conduzir à Sua glória. Para isso, Ele vem conduzindo o povo através dos sacerdotes e profetas, preparando-o para a vinda do Salvador. «A fé cristã ensina que em Cristo se realizou a salvação dos homens»[1].
Vimos anteriormente o significado que o véu do templo e outros símbolos da tradição judaico-cristã tinham para o povo judeu. Podemos agora compreender como o mistério pascal de Cristo é a plenitude da revelação e qual o significado da frase acima transcrita, inspirada na passagem comum aos evangelhos sinópticos, que descrevem como o véu do templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo, no momento da morte de Jesus: Mt 27,51; Mc 15,38; Lc 23,45.
Com a consumação da Sua vida e a ressurreição, Jesus destrói não apenas a morte, mas também a barreira que impede a contemplação e o conhecimento de Deus; Cristo, pela Sua própria natureza divina é «“exegese” de Deus para os homens»[2].
Por outro lado, quando o Verbo se faz carne[3] traz o infinito para o plano do finito, torna-se «imagem de Deus invisível»[4] para que morrendo na cruz e assumindo definitivamente a natureza humana, excepto no pecado, possa conduzir o homem finito para o plano do infinito, inserindo-o na relação filial (e não apenas criatural) com o Pai e na possibilidade da vida eterna.
Neste sentido, afirmou a Igreja no último concílio que «na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime.»[5]
«A cruz é revelação. Não revela uma coisa qualquer, mas Deus e o homem. Descobre quem é Deus e como é o homem.»[6]
Também podemos encontrar no rasgar do véu do templo um outro significado: como já não há nada que cubra o Santo dos Santos, este pode ser visto até por quem está de fora, a partir do átrio dos gentios. A revelação faz-se para todos os homens, não apenas os cristãos. Esta abertura aos pagãos é uma das grandes novidades do cristianismo. Por Cristo revelar Deus e o homem a «povos e toda a tribo, língua, povo e nação»[7] é que pode também o oficial romano afirmar que de facto este homem era mesmo o Filho de Deus[8] (analogamente ao relato do rasgar do véu, esta profissão de fé é transversal aos Evangelhos sinópticos).
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Introdução ao Cristianismo
FT-UCP, 2014
[1] J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, 123
[2] Ibidem, 17
[3] cf. Jo 1, 14
[4] Col 1, 15
[5] CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II., Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo
actual (Gaudium et Spes) 22,
Editorial A. O., Braga, 1987
[6] J. Ratzinger, Introdução
ao Cristianismo, 138
[7] Ap 5, 9
[8] cf. Mc 15, 39; Mt 27, 54; Lc 23, 47

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