Pensar (brevemente) o Espaço Vital




O espaço vital é o espaço necessário à existência de cada um. Hitler pensava que a sobrevivência da raça ariana só era possível nesse espaço. No entanto, acreditar na necessidade de tomada do espaço físico do outro para expansão do próprio espaço vital é confundir a física com a metafísica. O único espaço absolutamente indispensável a tal existência é o espaço ontológico que cada ser humano ocupa. Tirar todo o espaço físico a outro não o impede de ser enquanto não ultrapassar a matéria que o insere no mundo. Por isso Satan só pôde chegar à pele de Job. Apesar de ser possível chegar ao espaço ontológico de outro (pelo menos enquanto estiver unido à matéria), não é possível uma pessoa ocupar esse espaço de outrem excepto se forem a mesma pessoa. Ainda que perante essa possibilidade, ocupar o espaço ontológico do outro significaria não apenas tomar o seu lugar mas tornar-se ele mesmo, duas pessoas numa como duas almas num mesmo corpo. Por outro lado, anular o espaço ontológico do outro, privá-lo de ser, implica envolver o vazio que fica após a violência, para onde será atraído e se derramará aquele que cometeu tal acto. É então uma pessoa no espaço de duas, uma cisão da alma de modo a plenificar o vácuo. Tal plenificação é uma impossibilidade excepto para o Criador, pois o objecto-criatura não é maior por si do que é, potencialmente, em relação com outro. Além disso, juntamente com o ser humano anulado perde-se o conceito do que anula: se todos fossem de raça ariana, esta deixaria de existir pelo simples facto de que o conceito de raça pode existir apenas num contexto de diversidade.

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