Santa Teresa de Lisieux - Conversão de Pranzini


Santa Teresa de Lisieux - Conversão de Pranzini



Nesta noite de luz começou o terceiro período da minha vida, o mais belo de todos, o mais cheio de graças do Céu... A obra que eu não pudera realizar em 10 anos, realizou-a Jesus num momento, contentando-se com a boa vontade que nunca me tinha faltado. Como os seus apóstolos, eu podia dizer-Lhe: «Senhor, pesquei toda a noite sem nada apanhar». Ainda mais misericordioso comigo do que foi com os seus discípulos, Jesus pegou Ele mesmo na rede, fez o lançamento e recolheu-a cheia de peixes... Fez de mim um pescador de almas, senti grande desejo de trabalhar pela conversão dos pecadores, desejo que nunca tinha sentido tão vivamente... Numa palavra, senti a caridade entrar em meu coração, a necessidade de me esquecer para contentar os outros e desde então fui feliz!... Um Domingo, ao contemplar uma imagem de Nosso Senhor na Cruz, fiquei impressionada com o sangue que caía de uma das suas mãos divinas, senti muita pena ao pensar que esse sangue caía por terra sem que ninguém se apressasse a recolhê-lo e, resolvi conservar-me em espírito ao pé da Cruz para receber as divinas gotas que dela se desprendiam, compreendendo que devia em seguida espalhá-las sobre as almas... O grito de Jesus na Cruz ecoava continuamente no meu coração: «Tenho sede!» Estas palavras ateavam em mim um ardor desconhecido e muito vivo... Queria dar de beber ao meu Bem-Amado e sentia-me também devorada pela sede de almas... Não eram mais as almas dos sacerdotes que me atraíam, mas as dos grandes pecadores, ardia no desejo de as arrancar às chamas eternas...

Para estimular o meu zelo, Deus mostrou-me que Lhe agradavam tais desejos. Ouvi falar dum grande criminoso que acabava de ser condenado à morte por crimes horríveis, tudo levava a crer que morreria na impenitência. Quis a todo o custo impedi-lo de cair no inferno, a fim de o conseguir empreguei todos os meios imagináveis; sentindo que por mim mesma nada podia, ofereci a Deus todos os méritos infinitos de Nosso Senhor, os tesouros da Santa Igreja, enfim, pedi a Celina que mandasse celebrar uma missa pelas minhas intenções, não ousando encomendá-la em mesma com medo de ser obrigada a declarar que era por Pranzini, o grande criminoso. Também o não queria dizer a Celina, mas fez-me tão ternas e apertadas perguntas que lhe confiei o meu segredo; longe de se rir de mim, pediu-me para me ajudar a converter o meu pecador, aceitei com reconhecimento, pois teria querido que todas as criaturas se unissem comigo para implorar o perdão do culpado. Sentia no fundo do coração a certeza de que os nossos desejos seriam satisfeitos, mas a fim de me dar coragem para continuar a pedir pelos pecadores, disse a Deus que estava muito certa de que Ele perdoaria ao infeliz Pranzini, que assim o havia de acreditar mesmo que ele não se confessasse nem mostrasse qualquer manifestação de arrependimento, tanto eu confiava na infinita misericórdia de Jesus, mas que Lhe pedia apenas «um sinal» de arrependimento para simples consolação minha...A minha oração foi ouvida à letra! Apesar da proibição dada pelo Papá de não lermos qualquer jornal, não julgava desobedecer lendo as passagens que falavam de Pranzini. No dia a seguir à sua execução encontro à mão o jornal La Croix. Abro-o com ansiedade e vejo?... Ah!, as lágrimas traíram a minha emoção e fui obrigada a esconder-me... Pranzini não se tinha confessado, subira ao cadafalso e preparava-se para introduzir a cabeça na abertura fatal, quando de repente, levado por súbita inspiração, se volta, pega no Crucifixo que o sacerdote lhe apresentava e beija por tres vezes as sagradas chagas!...

A seguir a sua alma foi receber a sentença misericordiosa d'Aquele que declara que no Céu há mais alegria por um único pecador que faz penitencia do que por 99 justos que não tem necessidade de penitência!...


in História de uma Alma - Manuscritos Autobiográficos, 14ª ed., Editorial A.O.

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