Ética no caminho para a felicidade - Análise comentada à obra “De beata vita”, Santo Agostinho (3/3)


Sabedoria

        

No último dia de diálogo, Agostinho retoma os temas anteriormente debatidos, reafirmando a relação entre a indigência e a felicidade. Depois de ultrapassadas as dificuldades anteriores pela prática das outras virtudes, não é necessária mais preocupação com as necessidades corporais «porque a alma, onde se encontra a vida feliz, não sofre essa indigência[1]» porque «a vontade está posta no que é fixo»[2]. Esse é o estado daquele que alcançou aquela virtude que ilumina todas as outras e que Platão coloca na alma racional: a sabedoria.

Antevendo a conclusão do diálogo, Santo Agostinho afirma que «quem é sábio é forte e quem é forte não teme seja o que for»[3], justificando-se com o exemplo de Orata que «muito afortunado não podia ser feliz por causa do seu bom senso: quanto mais arguto fosse, melhor compreendia que podia perder tudo e, por isso, o medo dominava-o»[4] e assim era infeliz, facto que a mãe atribui à sua indigência, isto é, à falta de sabedoria.

Licêncio afirma então que «não existe maior e mais infeliz indigência do que a da sabedoria»[5], asserção que Agostinho corrobora comparando a indigência de alma à estultícia, isto é, ao contrário da sabedoria. Por meio do caminho que o grupo vai percorrendo, e que explicamos anteriormente ser o mesmo itinerário de elevação da alma em Platão, concluímos que além de nos encontrarmos num plano exclusivamente metafísico, a sabedoria é a condição sem a qual não é possível ao homem alcançar as outras virtudes e por isso ser feliz.

O grupo intenta então um esforço meramente semântico e parménico para evidenciar que se a nequícia era o nada do corpo, a estultícia é o nada da alma, com todas as implicações demonstradas anteriormente ao corpo a aplicarem-se também à alma. É neste momento do diálogo que Licêncio chama «plenitude»[6] à riqueza de alma.

Para que a análise não se torne um conjunto de temas desconexos, Agostinho faz então a ponte entre a sabedoria e as demais virtudes. Num longo monólogo ele demonstra, ainda que não explicitamente, que tal como a prudência aponta para a justa medida da temperança, a sabedoria indica ao homem a frugalidade da coragem, afirmando por fim que sabedoria «consiste na moderação da alma, isto é, na sua própria ponderação»[7].

Por fim, ele faz também a ligação entre a sabedoria e Deus, colocando-O como fonte da sabedoria, verdade e suprema medida da alma. «Quem, portanto, chegar à suprema medida pela verdade [sabedoria divina], é feliz.»[8] «Assim, a plena saciedade das almas, a vida feliz, consiste em conhecer com perfeita piedade, quem nos guia para a verdade, que verdade fruir, e através de quê nos unimos com a suprema medida».[9]

De facto, Platão considerava que a beatitude máxima era o regresso ao mundo das ideias, alcançável pela prática das virtudes. Agostinho, como neoplatónico, coloca também o itinerário de salvação na conduta ética, reafirmando o dito de São Paulo de que Deus «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade»[10].

Como cristão que é, recupera esta vontade divina “Deus quer”, colocando ainda mais ênfase na origem e destino e situando a conduta moral como uma condição necessária mas que de pouco vale sem o auxílio da Graça ou de «uma tempestade muito feroz e um vento que sopre [quando a ética falta] em direcção contrária [que] os conduzam [os navegantes] (…), até às alegrias certas e sólidas»[11]. «Sem a graça, as virtudes humanas não chegam à sua perfeição»[12].



Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Medieval
FT-UCP, 2014


[1] Agostinho, Diálogo sobre a felicidade, 69
[2] Ibidem, 70
[3] Ibidem, 69
[4] Ibidem, 73
[5] Ibidem, 75
[6] Ibidem, 79
[7] Ibidem, 83
[8] Ibidem, 85
[9] Ibidem, 87
[10] 1 Tm 2, 4
[11] Agostinho, Diálogo sobre a felicidade, 23
[12] Pozo, J. F., A Vida da Graça: Iniciação Teológica, Diel, Coimbra, 1997, 97

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