Mediação, céu e terra
De origem latina, chama-se mediatio à intervenção entre dois polos, que se apresentam como essencialmente antagónicos, com o objectivo de estabelecer uma ligação[1]. Não se trata de criar um espaço onde as duas realidades coexistam pois, se forem mutuamente exclusivas do ponto de vista ontológico, uma anularia a outra, como uma dualidade do tipo maniqueu. Por outro lado, se não fossem ontologicamente mutuamente exclusivas, então seriam a mesma coisa. Uma pessoa não pode ocupar todo o espaço ontológico de outra se não for a mesma pessoa. Apenas conhecemos na história um exemplo de uma união funcional assim: Jesus Cristo, que encerrou em si mesmo, simultaneamente, Deus e o Homem, o infinito e o finito.
Para a mediação é necessário unir os dois extremos, criar um lugar-comum, não onde os dois planos contraditórios coexistam mas sim onde se unam por meio de uma via de comércio entre esses mesmos planos. Nesta via, o mediador funcionará como um porteiro que decidirá o que atravessa de um lado para o outro. Este comércio possibilita que um qualquer objecto possa passar de um plano para o outro sem que haja perda da sua essência, como um artífice que faz a mediação entre o matéria e a forma para criar um produto final, sem retirar essência alguma à forma ou à matéria[2].
O lugar-comum para a mediação existe sempre que se verifique relação entre os dois objectos a ser mediados, ainda que haja uma infinita distância entre eles (a distância já é por si uma relação). Usando os conceitos da filosofia aristotélica, é possível afirmar que a causa eficiente actua como mediadora entre a causa formal e a material.
Esta mediação será tanto mais perfeita quanto maior[3] for a causa final, quanto melhor uso fizer da potência intrínseca à forma e à matéria. Neste sentido, a mediação em potência concretiza-se pela vontade e acção do próprio mediador.
Quanto ao céu e à terra, referem-se não apenas aos conceitos físicos da ciência moderna, a uma atmosfera mais ou menos rarefeita, nem a estruturas atómicas condensadas de forma sólida ou gasosa, mas também a realidades metafísicas que estão acima e abaixo do homem respectivamente, como veremos mais à frente.
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Seminário Temático
O Pensamento Ontológico Presente nos Filósofos Pré-Socráticos
O Pensamento Ontológico Presente nos Filósofos Pré-Socráticos
FT-UCP, 2014
[2] Como o oleiro que faz um vaso de barro sem que o barro deixe de ser, nem a forma do vaso se diminua.
[3] Usamos a expressão “maior” analogamente ao argumento endonoético anselmiano: o vaso de barro é “maior” do que a forma pelo simples facto de também existir além da ideia e maior que a matéria por lhe atribuir uma forma não “pseudo-aleatório”.

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