O Homem como mediador
Este céu e esta terra, de que Tales é mediador, adquirem um novo significado especialmente se tida em conta a influência provável do pensamento monoteísta judaico. Ao contrário da concepção antiga, esta reflexão atinge o pensamento ontológico da época, colocando o homem no centro da criação.
É de notar que qualquer um dos sujeitos apresentados contacta e supera a realidade física que o envolve, primeiro através dos sentidos, concretamente ao olhar o céu. Na natureza encontramos alguns exemplos de seres ou fenómenos que se “voltam” para o céu e para os astros, e onde se constatam padrões manifestantes de uma inteligência ordenadora, descrita diversas vezes através de fórmulas matemáticas: o girassol, cujas sementes se organizam em sequência de Fibonacci, voltam-se para o sol; as árvores que crescem segundo a mesma razão captam mais luz e desenvolvem-se mais depressa; as ondas do mar, descritas pelas suas equações, são resultado das marés provocadas pela lua. Mas nenhum desses seres ou fenómenos tem consciência do Λόγος que contém. Podem apenas adaptar-se para dele beneficiar.
Assim, a sensibilidade torna-se a primeira participação, quer no mundo quer no supra-mundo. A criatura toma pois a forma oposta àquilo que sente, como uma peça de puzzle tem a forma oposta daquela a que se une, mas por se unir participa da essência pois é peça do mesmo puzzle. David une-se a Deus porque sente ocupar espaço no Khalal Hapanoi[1], como Tales se sente ocupar espaço na água do poço.
Deste modo, toda a Criação participa do Criador, mas foi apenas ao Homem que Prometeu deu o fogo que lhe permite inteleccionar esta realidade. O homem consegue pelo uso de uma lógica quase sensível ou mesmo vegetativa desenvolver mecanismos, como o girassol, que lhe permitam controlar os elementos da terra e até manipulá-los, como faziam os homens primitivos. Mas, como no caso de Tales e dos lagares de azeite ou da predição do eclipse, o uso da razão permite compreender o mundo e a si mesmo, por pensar os fenómenos celestes como metafísicos, alcançar a matemática por trás desses fenómenos e interpretar o Κόσμος com um horizonte de infinito.
A reflexão torna-se mediadora entre a sensibilidade e o objecto sentido e, seja a realidade física ou metafisica, o homem não só é capaz de a pensar como se “aproxima” do objecto pensado, descobre-lhe os detalhes e com isso conhece-se a si mesmo e configura-se com o outro. O Homem, pelo exercício da razão percebe a qual peça do puzzle está unido, qual a forma dessa peça e consequentemente a sua própria e a que puzzle pertence.
Podemos ainda afirmar que ao mesmo tempo que Deus dá ao homem a capacidade de decisão[2], dá-lhe também a luz da razão que opera como «a lua e as estrelas» a iluminar o céu negro de David e de Tales, como o fogo na alegoria da caverna: mediador entre homem e as figuras que lhe dá acesso ao conhecimento das coisas. O homem conhece-se e supera-se na medida em que transpõe as suas fronteiras e a sua razão medeia entre o próprio individuo e algo fora de si e acima de si, quando aspira às coisas do alto[3]. Esta capacidade de pensar exclusiva do homem, especialmente do filósofo, é a via de comércio que permite mediar entre o Κόσμος e o Λόγος que preside ao próprio homem. A razão que se intelige olhando para o céu permite compreender a razão observada na terra.
Assim, a mediação realizada por qualquer um dos sujeitos apresentados, aqui paradigmas do filósofo, ocorre ao nível da inteligência e eleva-os a uma posição de superioridade em relação ao restante da criação: vivendo como filósofo, David aproxima-se de Javé e Tales da ἀρχή, como Platão do Sumo Bem, Aristóteles do Motor Imóvel e Ratzinger do Amor. Séculos mais tarde, Descartes concluiria que não se limitava a existir, afirmando que se «penso, logo sou». Acrescentaríamos «penso [naquilo que é a origem do ser, logo configuro-me a essa origem], logo sou».
«A relação é a casa do pensamento, o meio onde a inteligência habita. Aqui mora e sem esta demora não há pensamento. Pensar é descobrir-se entre o uno e o múltiplo, entre o mesmo e o outro, (…). O pensamento, porém, sempre do ser, é tão-só uma expressão da relação.»[4]
Apenas o espírito humano tem a capacidade de escutar e compreender o que os polos lhe comunicam, encontrar a intercepção entre os dois e mediá-los. Por ser o único capaz de aplicar esta mediação a si e ao mundo, adquire governo de si e do mundo; é isso que lhe dá autoridade sobre a criação.
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Seminário Temático
O Pensamento Ontológico Presente nos Filósofos Pré-Socráticos
O Pensamento Ontológico Presente nos Filósofos Pré-Socráticos
FT-UCP, 2014
[1] «Espaço vazio». De acordo com a mística judaica, Deus que é infinito ocupava todo o espaço. Para dar espaço físico e conceptual para a Criação poder existir, contrai-se a si mesmo criando um espaço vazio onde, por acção da sua luz vai criar tudo o que Existe. Não foi possível aceder ao texto original, apenas dispomos da seguinte tradução: «Prior to Creation, there was only the infinite Ohr Ein Sof filling all existence. When it arose in G-d's Will to create worlds and emanate the emanated...He contracted (in Hebrew "tzimtzum") Himself in the point at the center, in the very center of His light. He restricted that light, distancing it to the sides surrounding the central point, so that there remained a void, a hollow empty space, away from the central point... After this tzimtzum... He drew down from the Or Ein Sof a single straight line [of light] from His light surrounding [the void] from above to below [into the void], and it chained down descending into that void…. In the space of that void He emanated, created, formed and made all the worlds.» (Etz Chaim, Heichal A"K, anaf 2)
[2] cf. G. PICO DELLA Mirandola, Discurso sobre a
dignidade do homem
[3] cf. Col 3, 2
[4] J. Rosa, O
Primado da Relação: Da Intencionalidade trinitária da Filosofia, LusoSofia:
Press, Covilhã, 2009

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