Tales de Mileto
Partindo da suposição expressada anteriormente acerca da forma como David cumpria a ligação entre Deus e a criação, podemos agora tentar compreender como, de um ponto de vista estritamente filosófico, o homem é mediador entre o céu e a terra, na figura daquele que é considerado como o primeiro filósofo grego e pai do pensamento físico moderno: Tales de Mileto. Tales, viveu em Mileto, durante o século VI a.C. e viajou pelo Egipto e Babilónia onde adquiriu conhecimentos acerca de astronomia e matemática. Não restou fragmento algum dos seus escritos e, por isso, o que hoje se conhece acerca dele provém de autores posteriores.
Um dos relatos acerca da sua vida chega-nos através de Aristóteles, que na obra Política, narra como Tales teria enriquecido de forma astuta, ao arrendar todos os lagares de azeite da região depois de prever uma boa colheita de azeitona, por meio da observação dos astros[2]. Não é o único relato de um acontecimento desta natureza. Também Diógenes Laércio conta como Tales foi capaz de antecipar o eclipse solar de 585 a.C. por ter estudado os corpos celestes[3]. Naquela época, tais eventos não podiam ser previstos a não ser por uma observação expandida no tempo dos fenómenos meteorológicos a eles associados, o que torna empírico este tipo de investigação.
Ainda que exista aqui uma união entre o céu e a terra, entre o que se passa na atmosfera e as consequências no solo, não se pode afirmar com certeza que exista uma mediação operada por Tales. A hipótese conjecturada para o rei David não se pode aplicar ao filósofo, pois para o primeiro tem como consequência uma definição ontológica enquanto para o segundo não; nem a riqueza nem o eclipse afectam o ser do homem.
Outro relato das suas reflexões chega-nos por Platão, em género de anedota. No diálogo com Teeteto, o filósofo historiza como uma serva troçou de Tales por ele ter caído a um poço. «Dizia ela que Tales, ansioso por conhecer as coisas do céu, não se dava conta do que estava atrás dele ou mesmo a seus pés.»[4] Este episódio, apesar de ser encarado como historieta, esconde aquilo que foi a maior evolução no pensamento cosmológico da época: Tales terá intuído que a água era ἀρχή[5] de todas as coisas.
Esta ideia implica uma mudança na génese do mundo e do homem: já não se descreve a criação através de mitos mas de forma racional. Isto introduz uma diferença essencial entre estas duas formas de pensar. A primeira pode ser simplesmente aprendida, decorada, até revelada; pertence mais ao domínio da fé e pode perfeitamente ser a forma de pensar do salmista[6]. A segunda acarreta uma capacidade de inteligir ideias que vão além da imaginação e racionalizá-las; trata-se de poder “meta-pensar” as estruturas do que nos rodeia, incluindo a nós próprios. Este acto da inteligência é o que une o ser pensante ao objecto pensado, «vínculo das criaturas,… intérprete da natureza,… intermédio entre o tempo e a eternidade,… himeneu do mundo,…»[7].
Não temos garantia de que Tales tenha pensado a água como princípio metafísico mas não podemos excluir essa hipótese. Aristóteles afirma a crença de Tales de que o universo era constituído por água e que a terra de alguma forma solidificada[8], flutuava sobre essa água como madeira[9]. Concebia também um universo de tal forma vasto que nem se lhe colocava o problema de haver ou não algo que suportasse a água, como se a água se estendesse até ao infinito. Logicamente, esse (e qualquer outro) infinito é uma realidade metafísica, que para estar totalmente preenchido, aquilo que o preenche tem de ser algo não físico, analogamente às homeomerias de Anaxágoras[10] ou às mónadas de Leibniz[11], embora não existam registos de Tales ter tido uma intuição deste género. No entanto, é admissível pensar que Tales tenha também concebido a ideia de ἀρχή sem a restringir a uma concepção material, tornando-se mediador entre a metafísica e a física.
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Seminário Temático
O Pensamento Ontológico Presente nos Filósofos Pré-Socráticos
FT-UCP, 2014
[1] 587 a.C. – 538 a.C.
[2] cf. G. Kirk, Os Filósofos Pré-Socráticos, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1994, 4ª edição, 78
[3] cf. Ibidem, 79
[4] Ibidem, 77
[5] Principio, causa primeira de
tudo o que existe.
[6] Isto não quer dizer que o
salmista seja irracional nas suas observações do mundo e do homem como veremos
mais à frente.
[7] cf. G. PICO DELLA Mirandola, Discurso sobre a
dignidade do homem
[8] A ciência moderna poderia
explicar por qualquer processo semelhante à Lei dos Gases Ideais: o produto da
pressão pelo volume é proporcional à temperatura. No centro do universo a
pressão seria de tal forma elevada que, para um volume constante, a temperatura
aumentaria também. Depois de condensada numa massa de água, esta tornar-se-ia
tão quente que faria evaporar a água à sua volta, criando uma atmosfera, como uma
bolha que contivesse a terra e tudo o resto além da bolha permaneceria água.
[9] cf. G. Kirk, Os Filósofos Pré-Socráticos, 86
[10] Ibidem, 396
[11] cf. Leibniz, "Princípios de Filosofia ou Monadologia", in
Coelho, A. B., Obras
Escolhidas, Livros Horizonte, Lisboa, 159-179

Sem comentários:
Enviar um comentário