A humildade do «aleph»


A humildade do «aleph»



As lendas dos Hebreus falam sobre a humildade da letra «aleph», a mais volátil de todas as letras do alfabeto hebraico, tão modesta que nem sequer tem um som próprio, mas, de quando em quando, nela se apoiam as vogais que precisam dela. Portanto, quando o Eterno quis criar o mundo, chamou perante si o alfabeto, para perguntar qual das suas letras quereria ser a primeira dos escritos divinos da criação. Como acontece facilmente entre os humanos, também as letras competiram para levantar a mão, pretendendo cada uma delas ser a primeira e, com isso, ser digna de inaugurar o mundo. O «aleph» foi a única que se absteve, não ousando sequer levantar a mão; por isso, foi escolhido o «beth», de tal modo que a primeira palavra da Escritura é «bereshit», «in principio» [no princípio], e a primeira letra é o «beth», com que começa toda a bênção do Santo («berakah»).

Agora, esta letra - que corresponde ao nosso «b» - escreve-se à maneira de um quadrado aberto para o lado esquerdo, isto é, na direcção em que um hebreu prossegue a escrita: ela parece como que incompleta, uma evocação eterna do cumprimento, um desejo, uma sede. Precisamente por isso, segundo os Rabinos, o «beth» da primeira palavra da Escritura demonstra que a obra da criação não é conclusão, mas início; não é cumprimento, mas busca e espera. A lenda continua, narrando como o Eterno, admirado com a humildade do «aleph», quis recompensá-lo. E foi assim que, na hora de ser revelar a si mesmo e de dar ao mundo as Dez Palavras, o Decálogo da sua busca de amor pelos homens, foi ao «aleph» que coube o primeiro lugar: «Eu sou o Senhor teu Deus» - a palavra do eterno fundamento invisível que vem assomar ao tempo e estabelecer a aliança entre o Deus vivo e o seu povo - de facto começa com «eu», em hebraico «anochí», cuja inicial é precisamente o «aleph».

in Bruno Forte, "As Quatro Noites da Salvação", Editora Paulinas.

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