A Utopia
A Utopia,
tal como muitas outras obras posteriores, como por exemplo As Viagens de
Gulliver de Jonathan Swift, consiste numa crítica à sociedade, agrupando por
um lado os defeitos e por outro as qualidades, de forma a apresentar dois
mundos distintos constituídos cada um deles por um desses grupos.
No livro I da Utopia, Thomas More
apresenta uma sociedade disfuncional e decadente como sátira para o que ele
próprio observava um pouco por toda distopia da Europa, especialmente em
Inglaterra. No livro II, um navegador português chamado Rafael relata a More o
que ele viu numa terra nos mares do sul, a ilha fictícia da Utopia, descrita
como uma sociedade em tudo funcional. Nesta ilha, habitam verdadeiras
comunidades que, pela criação de instituições económicas, políticas e
religiosas, conseguiram eliminar a raiz de todos os males: a propriedade
privada. Esta é a característica em que se baseiam a inveja, o orgulho, a sede
de poder e a soberba, controladas apenas de forma aparente.
Acontece, porém, que essas mesmas
instituições governam o colectivo, não por engrandecimento do melhor de cada
individuo mas reduzindo-o a uma parte, essencial apenas na medida em que este
seja eficaz para o global. Thomas More tem consciência de que essa sociedade
não existe na realidade, embora estruturalmente alguma coisa se possa aproximar.
As comunidades monásticas, muito queridas a More, possuem as bases e a teoria
para um bom funcionamento, embora diversas vezes falhem na aplicação devido à
inclinação do homem para o mal. A Utopia acerta na aplicação mas falha na base,
isto porque o individuo é posto como alguém submetido, de alguma forma livre,
ao capricho de uma comunidade cujo único objectivo parece ser a eficiência, com
uma configuração funcionalista e utilitarista.
As qualidades das
estruturas organizacionais e as consequências a que estas faltas de humanismo
conduzem são evidenciadas ao longo de toda a obra ainda que por vezes de forma
bastante “diluída”, como se pode constatar.

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