A Utopia (1/4)


A Utopia



A Utopia, tal como muitas outras obras posteriores, como por exemplo As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, consiste numa crítica à sociedade, agrupando por um lado os defeitos e por outro as qualidades, de forma a apresentar dois mundos distintos constituídos cada um deles por um desses grupos.

No livro I da Utopia, Thomas More apresenta uma sociedade disfuncional e decadente como sátira para o que ele próprio observava um pouco por toda distopia da Europa, especialmente em Inglaterra. No livro II, um navegador português chamado Rafael relata a More o que ele viu numa terra nos mares do sul, a ilha fictícia da Utopia, descrita como uma sociedade em tudo funcional. Nesta ilha, habitam verdadeiras comunidades que, pela criação de instituições económicas, políticas e religiosas, conseguiram eliminar a raiz de todos os males: a propriedade privada. Esta é a característica em que se baseiam a inveja, o orgulho, a sede de poder e a soberba, controladas apenas de forma aparente.

Acontece, porém, que essas mesmas instituições governam o colectivo, não por engrandecimento do melhor de cada individuo mas reduzindo-o a uma parte, essencial apenas na medida em que este seja eficaz para o global. Thomas More tem consciência de que essa sociedade não existe na realidade, embora estruturalmente alguma coisa se possa aproximar. As comunidades monásticas, muito queridas a More, possuem as bases e a teoria para um bom funcionamento, embora diversas vezes falhem na aplicação devido à inclinação do homem para o mal. A Utopia acerta na aplicação mas falha na base, isto porque o individuo é posto como alguém submetido, de alguma forma livre, ao capricho de uma comunidade cujo único objectivo parece ser a eficiência, com uma configuração funcionalista e utilitarista.

As qualidades das estruturas organizacionais e as consequências a que estas faltas de humanismo conduzem são evidenciadas ao longo de toda a obra ainda que por vezes de forma bastante “diluída”, como se pode constatar.






Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Moderna
FT-UCP, 2015

Sem comentários:

Enviar um comentário