Qualidades da Utopia e da sociedade utópica
A ilha, pela sua geografia, é um abrigo seguro para todos os que nela residem. Devido ao facto de ser muito difícil navegar através dos seus canais, apenas os marinheiros mais experientes ou conhecedores das vias de entrada podem entrar na baía formada pela ilha[1]. Isto impedia qualquer intrusão por mar. Thomas More sabia que uma ilha é estrategicamente mais fácil de defender, embora não tenha vivido o suficiente para ver a tentativa de invasão pela invencível armada do rei Filipe II de Espanha, afundada em 1588. A Utopia não era originalmente uma ilha mas, pelo menos motivo, a primeira resolução de Utopos ao conquistar a península é abrir o canal que a separará do resto do continente e impedir que a ilha seja contagiada pelos sentimentos de orgulho e soberba de que padecem os povos vizinhos.
A segunda resolução é igualar os direitos e deveres dos cidadãos, nomeadamente no que se refere à eficiência do trabalho. Isto não significa que todos trabalhem o mesmo mas que a eficácia seja quantificável de igual maneira, já que o objectivo é o bem comum. Thomas More bem sabia a necessidade de uma estrutura hierárquica no governo na nação. Desta forma, por exemplo, os soldados que não estivessem ocupados a defender a ilha de invasões (inexistentes) seriam alocados na abertura do canal. Da mesma forma, dado que todos trabalham, mesmo aqueles que por inerência de cargo estão dispensados de forma a dar o exemplo, ninguém tem de trabalhar em excesso para compensar a falta de trabalho de outro. O tempo de cada um é posto ao serviço de todos. Nesse sentido, todos devem cultivar a terra durante dois anos, e de forma rotativa com os outros cidadãos[2]. Assim, cada habitante da ilha trabalha apenas as horas necessárias, o que permite guardar as restantes horas do dia para o lazer, as artes e outras actividades culturais. Deste excesso de tempo dedicado ao ócio que é permitido a cada um, já que todos trabalham o tempo que lhes compete e ninguém é sobrecarregado pelas faltas dos outros, nasce o estilo de vida epicurista dos cidadãos[3].
A questão da propriedade pública é colocada quando o marinheiro descreve o funcionamento do mercado. Tornar público o tempo de cada um tem como consequência a geração de uma economia perfeita, onde os bens e recursos nunca faltam. Por isso todos os bens são também postos à disposição de todos e cada chefe de casa pode tirar conforme considere necessário sem deixar qualquer compensação[4], já que não possui nada que não seja já de todos. Este modelo comercial suprime também as transacções feitas de forma monetária. A abundância de recursos cria nas cidades um sentimento de segurança, pois ninguém tem necessidade de roubar seja o que for. Assim, as portas das casas estão sempre abertas. «Nada é privado em lado algum»[5] e até as casas habitadas pelos trabalhadores rurais são casas comunitárias: «em intervalos apropriados, por todo o campo, existem casas mobiladas com equipamento de cultivo. Estas casas são habitadas pelos cidadãos que vêm para o campo por turnos.»[6]
Uma novidade que More introduz na sociedade é a ideia de uma educação gratuita e para todos. No final de cada dia, na ilha, são dadas palestras públicas às quais todos podem participar, incluindo as mulheres[7].
Contrariamente ao que Thomas More observa no parlamento inglês, todas as discussões que envolvam matérias de administração pública são orientadas calmamente pois devem ser debatidas em três dias diferentes. Isto permite aos utópicos amadurecer as suas decisões antes de as tornarem vinculativas, evitando resoluções precipitadas que possam afectar negativamente a sociedade[8].
Thomas More apresenta também a liberdade de culto como uma mais-valia da sociedade da Utopia. Apesar do estado não professar nem impor uma crença comum, todos são livres de praticar o seu culto. Esta concepção é a base para a actual existência de estados laicos, mesmo quando a sociedade professar a crença que organicamente escolhe.
A vivência da moral está muito enraizada na ideia de More, pelo facto de ter vivido uns anos na Cartuxa. Da mesma forma que nas comunidades monásticas, as refeições na ilha eram iniciadas por leituras e discussão de textos sobre tópicos morais, acompanhados de música[9]. O tempo livre de cada um poderia ser ainda utilizado para o tratamento dos jardins, aperfeiçoamento das competências artísticas nas artes consideradas uteis, etc.
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Moderna
FT-UCP, 2015
FT-UCP, 2015
[1] cf. More, T., Utopia, Cambridge University
Press, Cambridge, 2002, 42
[2] cf. Ibidem, 43
[3] cf. T. More, Utopia, 53
[4] cf. Ibidem, 55
[5] cf. Ibidem, 46. Tradução do original: «there is nothing private
anywhere»
[6] cf. Ibidem, 43. Tradução do original: «At
proper intervals all over the countryside they have houses furnished with farm
equipment. These houses are inhabited by citizens who come to the country by
turns.»
[7] cf. Ibidem, 50
[8] cf. T. More, Utopia, 48
[9] Por exemplo, na comunidade
ecuménica de Taizé, as refeições iniciam-se com dez minutos de música clássica
e só depois se abre espaço ao diálogo.

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