Defeitos da Utopia e da sociedade utópica
Apesar das diversas qualidades que Thomas More insere na sociedade da Utopia, a descrição feita pelo marinheiro é apenas de um aparente funcionalismo no nível mais superficial da sociedade. As estruturas e a vida moral e política da ilha não assentam na primícia de que um sujeito valorizável: o individuo não é mais que uma roda dentada inserida numa grande máquina funcionalista que parece nem ter um objectivo definido, apenas para a servir. Na Utopia, contrariamente ao pensamento modernista do tempo de More, o sujeito-infinito, almejado pelo sujeito-finito trata-se, na verdade, de uma sociedade que nada tem de infinito. Alguns dos problemas dessa visão são evidenciados também na narração de Rafael.
Na descrição da geografia, Thomas More coloca um rochedo à entrada da baía[1]. O mesmo rochedo é colocado por Santo Agostinho à entrada do porto do Céu para evidenciar a soberba daqueles que, pensando já se terem esforçado o suficiente, alcançam o rochedo e se deixam ficar, julgando ser esse o Céu[2]. Na Utopia, os habitantes da ilha, não apenas alcançaram o rochedo como lá ergueram uma torre, tornando-se senhores da própria soberba, dispondo dela com autoridade no que toca a permitir ou negar a entrada aos barcos que queiram chegar à ilha. Desta forma, as falhas que eram consideradas a raiz dos problemas só são eliminadas entre fronteiras da própria ilha o coração de cada utópico, que insistem em refugiar-se egoisticamente na Utopia, ao invés de levar as suas instituições ao resto do mundo.
Tal como na realidade do tempo de Thomas More, o colonialismo servia apenas para habitação, caso a Utopia tivesse excesso de residentes, e para extracção dos recursos privados das outras nações de forma a torna-los públicos para os utópicos. Nesse caso, os utópicos reclamavam o direito de invadir e expropriar as terras do continente, defendendo que se estas não eram usadas com vista ao bem-comum da ilha, então não estavam a ser perfeitamente utilizadas. Assim subsistem o orgulho e a soberba, dos quais os insulares dispõem conforme estes [o orgulho e a soberba] lhes comandam pois perdem consciência dela, surgindo explicita a teoria do espaço vital. «Eles consideram perfeitamente justificável fazer guerra aos povos que deixam as suas terras inactivas e desperdiçadas e que no entanto proíbem o uso e posse das mesmas a outros que, pela lei da natureza, se poderiam sustentar delas»[3].
A questão da não existência de propriedade privada é na verdade uma consequência negativa da falta de individualidade com que, ironicamente, os utópicos se governam. A partilha dos bens à semelhança das comunidades monásticas, não pode ser confundida com a absoluta propriedade pública defendida mais tarde pelo marxismo e o comunismo. Na Utopia, a partilha é levada ao extremo de até as ideias serem comuns. Assim nenhum individuo tem as suas próprias ideias, apenas as que a comunidade ensina desde a infância e as que vão sendo permitidas ter após decisão do senado, embora esta característica não apareça explicita na narrativa. Tal é evidente no que se trata acerca do concurso anual dos jardins das casas, que subsiste apesar de todos os jardins serem iguais, já que todos os habitantes da ilha pensam o mesmo relativamente ao cuidado a ter no seu jardim, ou mesmo em relação ao vestuário que é igual para todos pois é o mais funcional até então[4]. No entanto, desde a origem da Utopia, o fundador estabeleceu a forma como as estruturas sociais deveriam ser postas em prática, mesmo na questão estética[5]. Como Utopos sabia que não viveria tempo suficiente para ver a obra aperfeiçoada, deixou escritas as normas pelas quais os utópicos se deveriam governar futuramente, suprindo assim a total criatividade colectiva, relativizando tudo conforme a medida das duas ideias.
Uma consequência evidente desta utilização do homem ao serviço da sociedade é a permissão para acabar com a própria vida, caso esta se torne um fardo para si e para outros. Tal é o caso dos doentes sem possibilidade de cura, a quem os magistrados exortam a que cometam eutanásia[6]. Esses doentes aceitam livremente entregar a vida para se libertarem a si e à cidade do encargo que se tornaram. O que poderia ser considerado um acto de altruísmo é na verdade a redução do sujeito a uma parte que nem a um todo faz falta pois a medida é a possibilidade de produção. Outro aspecto desse funcionalismo é a possibilidade de um casal que descubra ter caracteres incompatíveis se divorciar. Depois da aprovação do senado, cada um fica livre de procurar outra pessoa com quem consiga viver harmoniosamente e contrair novo matrimónio[7]. É evidente aqui a crítica de Thomas More à conduta imoral do rei Henrique VIII relativamente ao divórcio, a cuja oposição valeu a More o martírio. Também a família é vista como uma ferramenta utilitarista para este aparente bem-comum. Se um jovem quiser aprender um ofício que não lhe possa ser ensinado pelo pai, será transferido por adopção para outra família onde possa aprender a profissão[8]. Na Utopia, até a vida e a instituição familiar estão subordinadas ao pseudo-sujeito-infinito que é a sociedade.
Trata-se portanto de uma sociedade que impõe a si mesma o ideal de perfeição, retirando ao individuo a necessidade de buscar uma perfeição ainda maior, nomeadamente num sujeito-infinito como é Deus. Porque perderam consciência da soberba, os utópicos nem reconhecem o limite do ideal como sendo o do seu próprio intelecto. O ideal torna-se um absoluto moral que justifica todos os meios para o alcançar, nomeadamente a separação geográfica e o colonialismo, pois «com soluções pragmáticas seria possível criar uma ordem tão perfeita que ninguém mais precisaria de ser bom.»[9]
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Moderna
FT-UCP, 2015
[1] cf. T. More, Utopia,
41
[2] cf. Agostinho, Diálogo sobre a felicidade: edição bilingue,
Edições 70, Lisboa, 25
[3] cf. T. More, Utopia,
54. Tradução do original: «They think it is perfectly justifiable to make war
on people who leave their land idle and waste yet forbid the use and possession
of it to others who, by the law of nature, ought to be supported from it.»
[4] cf. T. More, Utopia,
53
[5] cf. Ibidem, 46
[6] cf. Ibidem, 78
[7] cf. Ibidem, 80
[8] cf. T. More, Utopia, 49
[9] Henriques, M.
- Voegelin, E., Teoría
Política: dos megalítos aos astronautas, vol. XXIII, cap. 1

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