A posição de Thomas More
Thomas More sabia que tal sociedade não era possível, pois é forçoso que falhem as instituições numa sociedade onde falham as bases. A primeira evidência da descrença na Utopia é a própria configuração geográfica da ilha: esta tem a configuração de uma lua crescente com duzentas milhas de diâmetro e quinhentas milhas de circunferência. More apresenta a ilha como um figura geométrica impossível[1].
Além disso, More, sendo um católico devoto, não podia aceitar a concepção religiosa da ilha que, apesar de secularizada, permite a crença individual. A separação entre Fé e Razão está patente na redução que a sociedade faz da religião a um conjunto diminuto de dogmas[2], aceites como forma de manter a paz estabelecida mas proibidos de ser discutidos. Os utópicos são livres de ter o seu credo, desde que o mantenham privado, facto que não integra com o mandato apostólico do cristianismo. Ainda assim, Thomas More acredita na conversão de duas formas: conversão das bases socialistas da Utopia ao cristianismo, que permitiria manter as instituições comprovadamente funcionais mas com um olhar humano sobre os cidadãos[3]; a implementação em Inglaterra dessas instituições que não ponham em causa a individualidade do sujeito.
Também o modelo económico da sociedade utópica é baseado no pressuposto maleficio do dinheiro como raiz de vários prejuízos para a comunidade, como por exemplo, a ganância que muitas vezes conduz à corrupção e ao aumento das desigualdades sociais. As trocas comerciais directas que ocorrem dentro da ilha, associadas à abundancia de bens e recursos, permitem suprimir o capital. No entanto, Thomas More defendia que o verdadeiro problema residia na forma como o dinheiro era usado. More defendia o conceito de Commonwealth[4], que veio a ganhar corpo vários anos mais tarde com a formação oficial da Comunidade das Nações, em 1926. A apologia residia no facto de que o dinheiro não apenas é útil como necessário, pois permite o comércio sem a existência imediata dos bens transaccionados. Desta forma, uma nação pode comprar ou vender a mercadoria que quiser sem ter necessidade de vender ou comprar, respectivamente, o equivalente da outra nação. A economia da ilha era pois, fechada em si mesma, não permitindo aos indivíduos adquirir mais do que o estritamente definido pela comunidade, impedindo ao mesmo tempo o colectivo de obter qualquer benefício externo para si mesmo. Como humanista cristão e primeiro-ministro de Inglaterra, Thomas More não poderia concordar com este estado.
«Entretanto, ainda que me custe concordar com tudo o que foi dito (…), livremente confesso, no entanto, que na Commonwealth utópica existem muitas características que eu desejava para as nossas sociedades mais do que tenho expectativa de as ver»[5]
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Moderna
FT-UCP, 2015
[1] cf. T. More, Utopia, 41
[2] cf. Ibidem, 66
[3] cf. T. More, Utopia, 93
[4] Não se trata de uma união
política entre os países, como é o caso da União Europeia, mas de uma
organização para promoção da colaboração entre os países a vários níveis, como
seja o comércio.
[5] cf. T. More, Utopia,
107. Tradução do orginal: «Meantime, while I can hardly agree with everything
he said (…), yet I freely confess that in the Utopian commonwealth there are
very many features that in our own societies I would wish rather than expect to
see.»

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