Imortalidade ou vida eterna? (1/4)


Duas perspectivas sobre a morte




1. A vanidade da vida

«Vaidade das vaidades: tudo é vaidade»[1] diz Qoelet, não apenas a indicar a ilusão da importância fútil que damos às acções de cada dia, mas também a expressar a vanidade de cada um de nós e de cada coisa e o destino intrínseco à natureza da criação para o qual tudo tende: poder-se-ia escrever «tudo é vão», tudo vai acabar e o Homem não é imune.

Qoelet sabia-o, como todos o sabemos. Nunca a experimentámos, mas a noção de morte está presente em cada um de nós, desde a idade da conceptualização formal e a partir do momento em que esta se atravessa no nosso caminho e vemos o seu efeito[2]. Mais presente se torna quando o efeito é produzido por alguém que nos é querido. Este conhecimento dos sentimentos que a morte dos outros provoca em nós, ainda que não seja conhecimento da morte em si, dá-nos uma ideia da violência inerente ao acto de morrer. Não queremos experimentar em nós a separação a que os estimados, já mortos, nos forçaram a testemunhar para com eles. Daqui nasce o medo irracional de passar pela mesma prova. Irracional porque nem perante a possibilidade de uma morte pacífica deixamos de a temer, da mesma forma que uma criança tem medo da dor quando corta as unhas pela primeira vez: a morte e a dor não se enquadram no horizonte dos vivos. 

Esta perspectiva de que a vida humana «desemboca inexoravelmente na morte biológica»[3] inspira o Homem a reflectir sobre que estado há depois da morte e a influência da ética no processo de alcançar essa mesma condição, isto é, o dar sentido ao presente nasce perante o «absolutamente imprevisível»[4], que fica além do nosso horizonte existencial. É por sabermos que vamos morrer, e por sabermos que não falta muito, que nos levantamos todos os dias de manhã e estamos na vida como se fosse acabar a qualquer momento… e pode mesmo! Se soubéssemos que a vida se prolongava por mais uns séculos, adiávamos os estudos em Teologia lá para os duzentos anos, o casamento para os trezentos e os filhos para os quatrocentos. Parece anedota, mas o ritmo da nossa vida é pautado pelo seu limite, que mesmo após os mais recentes avanços científicos «poderá ser de setenta anos e, para os mais fortes, de oitenta.»[5]

Mais ainda, o medo da morte sugere ao Homem que o melhor será nem sequer passar por ela, movendo-o a buscar na vida algum tipo de perenidade a que se possa agarrar como bóia de salvação que, curiosamente, pode mesmo suprir o referido medo. São visíveis os esforços de inúmeras figuras que ao longo da história tentaram perpetuar a sua existência terrena, à semelhança das grandes epopeias clássicas, onde, como diria Camões, «aqueles que por obras valerosas» deixam a memória dos seus feitos e «se vão da lei da Morte libertando.» Nas palavras de Horácio, 
«Já terminei o meu monumento / mais perene que o bronze (de palavras), / mais alto e imortal que as pirâmides… / Resistirá às chuvas e aos ventos, / resistirá ao sucessivo passar dos anos, / velozes, e eu entretanto / não morrerei de todo, pois as minhas odes, / a parte mais conseguida de mim mesmo / vencerão a morte destruidora.»[6]
No entanto, a história é narrada pelos que depois de fazerem experiência do acontecimento que é o vivente, permanecem após a sua morte para o narrar segundo os dados recolhidos dessa experiência. Por isso, a memória do defunto não pode ser, nem é de facto vida após a morte, mas tão-somente a deturpação personalizada pelo narrador da imagem que o falecido deixou de si. Assim escreve C. S. Lewis, durante o luto após da morte da esposa:
«Que lamentável hipocrisia dizer, “ela viverá para sempre na minha memória!” Viver? É exactamente isso que ela não vai fazer. […] Como se eu quisesse apaixonar-me pela minha memória dela, uma imagem na minha própria mente! Seria uma espécie de incesto.»[7]


2. É possível a imortalidade?

Um outro ponto de vista, que parece ter sido adoptado por uma maioria significativa das sociedades, especialmente as ocidentais da actualidade, é o de que a morte simplesmente não existe e podemos viver despreocupados como se o fôssemos fazer ad aeternum. Tornou-se uma questão tão pessoal que passou a ser considerada tabu, que se não se sente então não existe, nem se fala para não escandalizar. Quando por coincidência ela acontece, se nos passou próxima foi o karma; se foi ao familiar de outro, o sentimento que acompanha os meus pêsames não é de solidariedade nem tão-pouco compadecimento, mas de uma profunda ignorância que nos leva a pensar não ter aptidão alguma para esses momentos, quando na verdade é a única coisa para a qual estamos objectivamente aptos desde que vimos à existência. E em rigor, para quem vê a morte desta perspectiva, ela só bate à porta dos que aparecem no noticiário. Podem ser palavras duras, mas não é aceitável que o ser humano racional se reduza deliberadamente à hipocrisia de empurrar a lembrança da morte para tão longe e o faça esquecer a distância dos tais setenta ou oitenta anos, impostura que conduz os mais incautos a buscar em mais uma tela[8] um sentido para a vida.
«O Homem vive “como se” o seu destino fosse eterno: agir, criar, comprometer-se eticamente, assumir e justificar referências – tudo isto implica, pelo menos atematicamente, um certo “para sempre”»[9]
Procurar a imortalidade neste mundo é procurar uma fuga à realidade essencial da limitação do Homem. Assim, facilita-se perceber a falácia que é falar em imortalidade humana, pois chegados a esse momento, a vida perdeu o destino, juntamente com cada um dos gestos que a compõe. Num certo sentido, imortalizam-se os imponderados para quem o quadro de hoje é absolutamente igual ao de ontem, como um eco.
«A morte (ou a sua alusão) torna os homens preciosos e patéticos. Estes comovem pela sua condição de fantasmas; cada acto que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja para se apagar como num sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do fortuito. Entre os Imortais, pelo contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma única vez, nada é preciosamente precário.»[10]
A morte pode não ser natural à vida mas a sã identificação da sua inevitabilidade humaniza-nos. Alguns autores de narrativas que seguem as linhas de pensamento das filosofias humanistas da modernidade imaginaram de forma clara as consequências da imortalidade na vida. É exemplo Jonathan Swift, que por entre diversas aventuras conduz Gulliver ao reino de Luggnagg, onde conhece os Scruldbruggs que tiveram a infelicidade de nascer imortais mas envelhecem para sempre e adquirem «não só todas as loucuras e enfermidades dos mais velhos, como também muitas outras que resultam da tenebrosa perspectiva de viver para sempre»[11]. Por essa razão, chegados aos oitenta anos, eram considerados mortos pela lei, não podendo casar ou adquirir bens.

Não é possível imaginar o corpo e a vida política de alguém assim, com a degradação corporal própria da idade, não celebrando o seu tricentésimo aniversário pois a celebração da vida não terá para ele qualquer sentido, não terá a preciosidade própria da precaridade. Uma vida sem ocaso não terá idade de ouro. Seria como de um dia de Verão se tirar o pôr-do-Sol.



Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Seminário de Antropologia Filosófica
O Homem, unidade diferenciada de corpo alma e espírito: estrutura e manifestação
FT-UCP, 2015


[1] Eclesiastes 1, 2
[2] Por exemplo, quando na infância se vê morrer o animal de estimação.
[3] Sahagún Lucas, J., Las dimensiones del hombre: Antropologia Filosófica, Sígueme, Salamanca, 1996, 243. Tradução de: «desembocan inexoravelmente en la muerte biológica.»
[4] Ibidem, 244
[5] Salmo 89, 10
[6] Burgos, J. M., Antropologia Breve, Diel, Lisboa, 2012, 179
[7] Lewis, C. S., A Grief Observed, HarperCollins Publishers, New York, 2001, 20. Tradução de «What pitiable cant to say, ‘She will live forever in my memory!’ Live? That is exactly what she won’t do. […] As if I wanted to fall in love with my memory of her, an image on my own mind! It would be a sort of incest.»
[8] cf. Tolkien, J. R. R., As aventuras de Tom Bombadi e outras histórias, Europa-América, Mem Martins, 2002, 6ª edição, 147-167. Referência ao facto de Niggle se preocupar tanto com as pinturas dos quadros «demasiado grandes e ambiciosos para a sua arte» que adiou a preparação da morte até ser tarde demais. Também, por tela, entenda-se todo o tipo de mundanidade consequente do relativismo moral e da perda de sentido para a vida, que mais não são do que fugas à realidade.
[9] Teixeira, J., "Imortalidade", in Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguêsa, Logos, Verbo, 1356
[10] J. BurgoS, Antropologia Breve, 174
[11] cf. Swift, J., As Viagens de Gulliver, Público, Porto, 2004, X

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