Imortalidade ou vida eterna? (2/4)


Duas possibilidades post-mortem




Apesar de todos os esforços para superar a morte própria, quando se extinguem absolutamente as possibilidades terrenas, resta apenas um cadáver. Porque o corpo «é o modo primeiro de o existente se apresentar»[1], também o cadáver é o modo primeiro de o Homem, concomitantemente à sua morte, cessar a apresentação; para os vivos, o corpo-vivo comunica λόγος, o corpo-morto é só silêncio.
«A pessoa desaparece e o cadáver fica aí para o mostrar. A sua presença física é dramática, precisamente porque mostra uma não presença, um desaparecimento, o da pessoa que estava por cá, mas já não está e não sabemos para onde foi.»[2]
As reflexões acerca de para onde foi dividem-se quanto à possibilidade ou não de existência depois da morte.




1. Aniquilação

Uma das linhas de pensamento, que vigora predominantemente nos sistemas filosóficos da suspeita é o do niilismo do Homem e de todas as suas faculdades e possibilidades depois da morte. Nesta concepção existencialista do Homem, qualquer forma de imortalidade é apenas a projecção do desejo que a própria pessoa encerra, como um sonho e não uma realidade.

Um apologista da aniquilação é Feuerbach, filósofo da esquerda hegeliana, segundo o qual «a sobrevivência e a imortalidade não são uma realidade, mas o sonho que o homem sonhe de si mesmo»[3]. Apesar de o Homem ser essencialmente corpo e sensibilidade é também capaz de racionalidade e procura através da razão a sua essência. Acontece que nessa busca, hipostasia a sua própria essência numa concepção de vida transcendente. Por isso a vida além da morte não passa de uma projecção da vida biológica que lhe é essencial e a imortalidade uma perpetuação da espécie humana e não do sujeito em si. Mais tarde, segui-lo-ão Karl Marx e Sigmund Freud.

O parecer é sustentado pela redução do Homem à sua factualidade histórica. Se depois da extinção das funções biológicas vitais não há mais possibilidade terrena e histórica, então não há mais Homem e restam apenas «os despojos para a eternidade»[4]. De facto, a morte é também a perda da corporeidade: o corpo torna-se uma realidade estranha e dolorosa pois foi humana mas não é mais[5], ficando um aparente vazio ontológico. Neste sentido, e atendendo à concepção de Homem como corpo provido de vida, quando esta o deixa então morre o Homem todo.

Não valeram os esforços de Thomas More, que anos antes escrevera na Utopia o que poderá ser considerado na forma própria do seu tempo uma crítica ao posterior positivismo que conduziu diversos filósofos a propagar a ideia, hoje generalizada, de que a morte é apenas um desligar das funções vitais e operativas da máquina humana, pensamento que justifica a eutanásia na obra de More bem como muitas outras práticas actuais.
«Mas se algum doente tem tortuosa dor, sem esperança de recuperação, os padres e magistrados exortam-no, visto que se tornaram um fardo para eles mesmos e todos à sua volta, a morrer já que não conseguem viver senão em grande miséria.»[6]
Seja por desígnio da biologia, decisão do mesmo ou até da sociedade, um Homem que espera a morte sem crer em algo depois é um Homem de quem já não se pode esperar vida pois, sem o saber, ele próprio já está morto, arrasta-se pela vida vazio de si mesmo e cheio de coisa nenhuma.

No entanto, nem a filosofia de Feuerbach nem a visão mecanicista das ciências modernas (nomeadamente as neurociências) respondem efectivamente à questão, pois sem o reconhecerem, continuam a centrar a sua análise no limar da vida humana e não no que está para lá dela, pelo simples facto de prosseguirem pretendendo aplicar esquemas lógicos humanos a algo que radicalmente nos transcende, que ultrapassa o limite da experiencia sensorial e do nosso intelecto pois «só temos experiência directa quando morremos e então já não nos será de qualquer utilidade»[7].



2. Sobrevivência

Uma outra linha de pensamento com alguma relevância é aquela dos povos do antigo médio e extremo oriente, e que de alguma forma se tem difundido recentemente entre os povos ocidentais. Trata-se de um raciocínio que defende a existência pós-morte e que assenta em duas premissas, que acabam por originar também a dois modelos distintos.

Em primeiro lugar temos a crença na ciclicidade do tempo e da história, em que os sucessivos acontecimentos se vão repetindo até que o Ser tenha cumprido determinado objectivo, seja este de purificação, expiação ou aprendizagem. Inserido nesse ciclo, o Homem nasce e morre, e repete as vezes necessárias até atingir o fim desejado. É possível que não nasça na mesma forma, isto é, num corpo semelhante ao que tinha antes de morrer, mas em virtude de um processo transformista o mesmo Homem ou apenas uma porção de si nasça no corpo de um ser distinto. A isso se designa por reencarnação, ou particularmente por metensomatose, como acontece no Hinduísmo, Budismo ou no pensamento clássico grego: no diálogo com Ménon, Sócrates serve-se deste argumento para justificar a sua teoria da reminiscência.
«Ora, visto que a alma é imortal e muitas vezes renascida e visto que já contemplou todas as coisas que há, aqui, na terra, e lá na morada de Plutão, não há nada que não tenha já aprendido.»[8]
Como foi dito, este conceito tem sido bastante aceite nas culturas ocidentais, pelas razões expostas anteriormente: uma vida sem a perspectiva da morte eterna desculpabiliza qualquer acção, isto é, podemos gozar irresponsavelmente a vida porque o castigo, se vier, terminará nesta vida ou virá só na próxima. Além disso, aceitar a possibilidade de reencarnação excluindo o objectivo último da morte ou impondo que esta sirva apenas de passagem para outra forma de existência terrena, pode retirar-lhe valor ontológico na medida em que a metempsicose pode mesmo ocorrer para um animal ou vegetal, muito inferior ao Homem e, certamente o aparta do horizonte da bem-aventurança eterna que tanto deseja. Semelhante a esta visão é a ideia do Eterno Retorno de Friedrich Nietzsche e o facto de esta concepção ter sido também adoptada pelo «classicismo alemão em parte […] e alguns marxistas revisionistas»[9].

A segunda premissa é a visão de que o Homem pertence a um cosmos energético do tipo maniqueu, de certo modo também panteísta, que comanda todo o universo numa luta eterna entre um ente positivo e outro negativo pelo domínio absoluto do cosmos, em que o desfecho é na verdade e sempre o equilíbrio, pois um não pode existir sem o outro. O ser humano de alguma forma decaiu em corpo, do qual por um processo ético e/ou ascético se deverá libertar para voltar à paz da energia positiva. É exemplo o Taoismo.
«No fundo está subjacente uma concepção dualista do ser humano composto de alma e corpo, cujo elemento espiritual termina integrando-se no princípio original e amorfo de onde procede.»[10]
Esta corrente filosófico-religiosa tem também obtido seguidores nas culturas ocidentais, em parte pelas mesmas razões que a reencarnação: a desculpabilização das acções, porque o que aqui conduz à má prática não é a liberdade humana mas sim a energia negativa. Contrariamente à questão da reencarnação, esta visão de um deus-energia responde, ainda que de forma imatura, àquela questão essencial do Homem que é o reconhecimento de estar imerso num mistério que o transcende mas dá sentido à vida, ainda que não o possa nomear.

Um exemplo contemporâneo é o da saga Star Wars, de George Lucas, que sob a forma de mito messiânico passado há muito tempo atrás numa galáxia longínqua, os Jedi e os Sith aprendem e treinam o domínio da Força e lutam entre si para restaurar o equilíbrio no universo. Neste mundo fantástico, aqueles que atingem um grau elevado no domínio da Força podem inclusivamente sobreviver, não morrendo mas juntando-se a ela num estado espectral.

Embora qualquer uma destas concepções de existência post-mortem aproximem o Homem da resposta que procura para a questão última da vida eterna, admitir a possibilidade de este poder sobreviver per se, conduz necessariamente à exclusão da dimensão misterial da morte e ao relativismo da ética necessária para alcançar essa sobrevivência, dado não existir um critério universal que defina um caminho, nem sequer um ente com autoridade para o fazer, e ainda se tratar certamente de uma
«concepção monista da realidade, que desemboca num grosseiro panteísmo onde carece de explicação a dimensão pessoal do homem tal como é concebido pela antropologia filosófica actual.»[11]
Perante a incapacidade das soluções apresentadas, somos forçados a indagar a possibilidade de uma configuração de sobrevivência superior às anteriores: algo que se possa intrinsecamente designar por supervivência.




Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Seminário de Antropologia Filosófica
O Homem, unidade diferenciada de corpo alma e espírito: estrutura e manifestação
FT-UCP, 2015


[1] Ganho, M. L. S., Existência e Transcedência em Gabriel Marcel, Braga, 1994, 53
[2] J. Burgos, Antropologia Breve, 176
[3] J. Sahagún Lucas, Las dimensiones del hombre, 246. Tradução de: «la supervivencia y la inmortalidad no son una realidad, sino el sueño que el hombre sueña de sí mismo.»
[4] Ibidem, 246
[5] cf. J. Burgos, Antropologia Breve, 177
[6] More, T., Utopia, Cambridge University Press, Cambridge, 2002, 78. Tradução de: «But if any [sick] have torturing pain, without hope of recovery, the priests and magistrates exhort them, since they are become a burden to themselves and all about them, to die since they cannot live but in great misery.»
[7] J. Burgos, Antropologia Breve, 176
[8] Platão, Ménon, Edições Colibri, Lisboa, 2008, 4ª edição, 81c
[9] J. Sahagún Lucas, Las dimensiones del hombre, 248. Tradução de: «el clasicismo alemán en parte y algunos marxistas revisionistas.»
[10] Ibidem, 248. Tradução de: «En el fondo subyace una concepción dualista del ser humano compuesto de alma y cuerpo, cuyo elemento espiritual termina integrándose en el principio original amorfo de donde procede.»
[11] Ibidem. Tradução de: «Concepción monista de la realidad ciertamente, que desemboca en un burdo panteísmo donde carece de explicación la dimensión personal del hombre tal como es concebido por la antropología filosófica actual.» 

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