Imortalidade ou vida eterna? (3/4)


Supervivência





Embora as modalidades de sobrevivência apresentadas não possam responder totalmente ao mistério da morte, não deixam de ter «a mesma preocupação ética e religiosa que consideram a morte corporal como libertação de uma existência alienada»[1]. No entanto, não poderemos falar de imortalidade nem de sobrevivência como possibilidade de vida além da morte. Servir-nos-emos então do termo supervivência: não como aquela forma de existência que escapou à morte, mas a uma vida superior à terrena.

Atendendo ao pensamento de Sahagún Lucas, este afirma a existência de uma preocupação, deixando antever a crença numa formação (pelo menos) dualista do Homem: não é apenas corpo, mas corpo que se preocupa, corpo que meta-pensa por ser dotado de uma dimensão extra-biológica que o anima. Esta dimensão não apenas anima o corpo de forma a criar movimentos como resposta a um estímulo, mas é animada em si mesma por outra que a transcende e a provê de duas características que não podem de forma alguma estar presentes per se neste estádio: capacidade de escolha para aceitar ou recusar o estímulo e competência para levar a cabo a escolha, liberdade e (ao limite) capacidade de amar. 

À primeira dimensão chamamos biológica, à segunda chamamos psíquica e à terceira espiritual.[2] Este terceiro nível, daqui em diante designado por alma, é o humanamente mais elevado que até hoje o intelecto conseguiu intuir e é, categoricamente, a substância humana. Enquanto substância é una e por isso não está sujeita à decomposição, não é destruída a não ser por acção externa de uma realidade necessariamente superior.

A afirmação dogmática da unicidade brota de dois aspectos: em primeiro lugar, da constatação feita anteriormente acerca da universalidade do desejo do transcendente; posteriormente, na crença de que o Homem não possa sentir necessidade de algo que não tenha experimentado, o que leva a concluir que o desejo nasce da falta que o Homem sente relativamente ao que já experimentou. É um desejo tão grande que leva o santo a afirmar «vivo sem viver em mim / e de tal maneira espero / que morro porque não morro»[3].

Por outras palavras, a alma tem uma espécie de “concupiscência boa”[4] pela supervivência, que incute à psique porque de alguma forma já a saboreou. Não podemos, no entanto, confundir com o modelo platónico: a alma de que falamos não contemplou o Sumo Bem e na vida se recorda. Esta concupiscência específica nasce do facto de a alma pertencer à própria dimensão transcendente, como a daqueles que
«por terem recebido um corpo, (…) embora soubessem donde tinham vindo, a recordação do reino abençoado era para eles uma recordação de muito longe, pela qual anelavam extraordinariamente.»[5]
embora esta seja apenas uma analogia, pois não estamos a falar de uma alma que encarna num corpo. «Por terem recebido um corpo» pode sugerir que a alma encarnou mas não falta à citação a referência de «eles» terem uma existência própria, prévia à encarnação, já que essencialmente eram anjos e não homens: sabiam «donde tinham vindo». 

A alma humana pertence ao Homem mas como dom e não como génese, vem à existência e é-lhe oferecida e anima-o desde a sua concepção [do Homem] mas com a morte volta à sua origem transcendente, é ele mas não é dele. Há que entendê-la segundo a ambiguidade da expressão Deus homini animae est[6]. Tolkien sabia a diferença e talvez possamos também compreender melhor mais adiante, quando analisarmos a metáfora.

Apesar disso, é significativo reter que a alma que transcende o tempo e o espaço onde o corpo existe e faz o Homem desejar a eternidade tem, necessariamente, de transcender a própria morte e, «imortal por natureza, uma vez separada do elemento corporal, continua existindo com a existência que lhe é própria e corresponde à sua plenitude.»[7]

Paradoxalmente, esta acção que a alma realiza para mover os substratos acontece à custa de si mesma, isto é, ao “impelir” o Homem, arrisca-se a que este se sirva dela causando-lhe dano, sujeitando-se [a alma] à decomposição da sua forma mais pura. Forma da substância? Substância mutável?[8]

Na morte humana, podemos ver o que acontece ao corpo e até medir o apagar do psíquico. Não podemos ver a alma nem o que lhe sucede depois mas podemos afirmar que a morte humana não a destrói, abrindo assim uma janela que permite vislumbrar uma forma de existência posterior ao acto da morte. Mais ainda, entrever a marca que a vida ética e política lhe imprimiu, ou como afirma Sahagún Lucas, «a riqueza ontológica [à qual chamámos forma da alma] adquirida pelo homem no decurso existencial é um património que não pode perder da noite para a manhã.»[9]

Quanto ao corpo, como vimos anteriormente, não é apenas o cárcere da alma, como afirmou Platão, mas a via de comunicação desta com os vivos sem o qual não há Homem. Para poder transcender ao estado de vida superior tem de se libertar do corpo e não pode ter a presunção de querer elevar-se sem abdicar dele, morrendo o Homem todo. No entanto, é desta forma que deixa a alienação na vida terrena para superviver, tornando-se um Homem acabado, pleno. Por isso, depois de transpor o umbral da vida, o que supervive é o Homem todo, com todo o «mais de realidade ou densidade ontológica que não concorda com o nada ou a desaparição total»[10]





Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Seminário de Antropologia Filosófica
O Homem, unidade diferenciada de corpo alma e espírito: estrutura e manifestação
FT-UCP, 2015


[1] J. Sahagún Lucas, 248. Tradução de: «la misma preocupación ética y religiosa que considera la muerte corporal como liberación de una existencia alienada.»
[2] A doutrina da tripartição do Homem não é nova, apenas reformulamos a demonstração filosófica. Era definida, por exemplo, já por Aristóteles como uma tripartição da alma em vegetativa, sensitiva e intelectiva, respectivamente.
[3] JOÃO DA Cruz, Obras completas, Edições Carmelo, 2005, 6ª edição, 73
[4] Atendendo à origem etimológica da palavra latina concupiscentia, com uma afirmação positiva do termo usado na doutrina cristã. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2514
[5] J. Tolkien, Contos Inacabados, Europa-América, Mem Martins, 2002, 5ª edição, 402
[6] Com duplo dativo e verbo esse, admite duas traduções: «Deus serve de alma ao homem» e «Deus serve ao homem de alma». Na primeira, o duplo dativo faz do homem o complemento indirecto da acção de Deus lhe servir (dar) a alma. Na segunda tradução, homini com esse funciona como dativo de posse, indicando que a alma lhe pertence.
[7] J. Sahagún Lucas, Las dimensiones del hombre, 249. Tradução de: «inmortal por naturaleza, una vez separada del elemento corporal, continúa existiendo com la existencia que le es própia y corresponde a su plenitud.»
[8] Suspendemos aqui este raciocínio para o retomarmos quando o aplicarmos à metáfora.
[9] J. Sahagún Lucas, Las dimensiones del hombre, 250. Tradução de: «La riqueza ontológica adquirida por el hombre en su decurso existencial es un patrimonio que no puede perder de la noche a la mañana.»
[10] Ibidem. Tradução de: «Es un plus de realidad o densidad ontológica que no se aviene con la nada o desaparición total.»

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