A metáfora[1]
Finda a exposição filosófica, podemos correr o risco de transformar a monografia em pregação, mas agora que justificámos a crença na vida eterna, supervivência, não será inconveniente arrumar as ideias nem presunçoso olhar a vida desta perspectiva, auxiliando-nos para isso de uma história metafórica.
Em The Flatland (1884) [2], Edwin Abbott conta a história de um quadrado que vivia num mundo de duas dimensões espaciais, a Flatland, e tudo o que conhecia se passava nesse mundo. Certa vez sonhou que visitava a Lineland e tentava instruir o rei da Line acerca da existência de mais uma dimensão como ele constatava no seu mundo, mas o rei não percebeu. Um dia, surge à sua frente um ponto insignificante que lhe falou de uma terceira dimensão espacial e da Spaceland… ideia absurda. O ponto cresceu até que não era mais um ponto mas um círculo e diminuiu até voltar a desaparecer. O ponto e o círculo eram, na verdade, o ponto tangente e o corte axial de uma esfera que atravessava a Flatland. Como o quadrado insistia em não aceitar, a esfera decide mostrar-lhe e arranca-o do plano, para lhe mostrar a Spaceland e o seu mundo visto de cima.
A força que a esfera exerce no quadrado é de tal forma grande que o arranca do seu plano de existência, semelhante a um astronauta a acelerar e desintegrar-se ao ser puxado para um buraco negro: simplesmente não é possível ser algum sobreviver a tal acontecimento. Morreria o astronauta como morre o quadrado. Apesar disso, este não tem memória do momento da passagem, faz a viagem inconsciente tal como Niggle no comboio[3] e apenas acorda no destino. Aí surge a narração da experiência:
«Um horror indescritível tomou conta de mim. A primeira coisa de que me apercebi é que estava no meio de uma grande escuridão; depois, senti um atordoamento nauseante e uma visão que não era exactamente como ver. Via uma Linha que não era bem Linha, um Espaço que não era bem Espaço; e eu era eu, mas ao mesmo tempo não era.»[4]
Importa salientar alguns aspectos. Quando o quadrado é arrancado do mundo é todo quadrado que morre pois mais ninguém o vai poder ver na Flatland, tal como é todo o Homem que morre e cessa a sua apresentação para os vivos. No entanto é todo o quadrado que permanece na Spaceland e conserva a sua forma de quadrado, tal como é todo o Homem que supervive, e a sua alma continua a ser ele mesmo, nessa plenitude de existência.
Se na Flatland a figura com quatro vértices era superior à de três vértices, na Spaceland um plano formado por quatro pontos pode ser o mesmo se formado apenas por três, e existem infinitos planos. Da mesma forma, na vida eterna «há muitas moradas»[5], e como não há duas pessoas iguais também não há planos paralelos, donde todos se intersectam. A história continua com alguns diálogos onde a esfera ensina ao quadrado as maravilhas da terceira dimensão e uma visita à Pointland, onde o único habitante ocupa toda a dimensão e por isso crê ser o único vivo, ao ponto de considerar as vozes da esfera e do quadrado como a sua própria consciência.
Se abdicamos em vida dos pontos que nos foram concedidos, ignorarmos o desejo de transcendente que a alma nos dá e vivermos apenas da psique e do biológico, reduzimos a nossa dimensão pela imoralidade da acção e deformamo-nos e à nossa alma (como afirmámos anteriormente). Podemos chegar à vida eterna reduzidos a rectas ou mesmo pontos isolados, onde não há comunhão nem plenitude de vida: supervivência condenada ao egoísmo e solidão no «Abismo Sem Dimensões».
«Olhai para a miserável criatura à vossa frente. É um Ponto, um ser como nós, mas confinado ao Abismo não dimensional. Ele é o seu próprio Mundo, o seu próprio Universo; nada pode conceber além de si; (…) ele se crê Uno e Único, quando apenas é Nada. Mas apreciai a sua absoluta autocomplacência…»[6]
Retomando o raciocínio suspenso, «um ser como nós» indica precisamente que a substância humana não é mutável, mas eis a supervida medíocre que espera o insensato que gastou o tempo na existência terrena a confinar as suas dimensões a si mesmo, a esquecer-se de que é a amar outros (e especialmente o Outro) que aumentam as dimensões, deformando a sua substância. Uma supervivência restringida a um ponto, tal como a do Rei da Pointland, é tão fechada em si mesma que, mesmo que no início produza solidão, com o passar do tempo exclui mesmo a possibilidade de outro sequer se lhe relacionar. O rei vive tão só há tanto tempo que assume a voz do quadrado e da esfera assume como sendo uma rebeldia da sua própria consciência.
«O Seu próprio Pensamento regressando a Si próprio manifestando-Lhe desprezo só para tornar ainda mais gratificante a Sua felicidade! Oh, doce rebelião instigada para saborear o gosto do triunfo!»[7]
Que inferno! E esta degradação pode acontecer ainda em vida, como se o Filho se esquecesse da existência do Pai a tal ponto que, perante a perspectiva de voltar para casa, julgasse o Pai como fruto da sua imaginação e continuasse a guardar porcos até à eternidade[8]. Provavelmente o Pai não o poderia mais resgatar, tal é a dimensão da recusa. Vive tão só para si mesmo que se alheou de si próprio, considerando-se um outro de quem se serve e a quem serve, ou eventualmente um nada. Não será esta egolatria a verdadeira génese do absoluto niilismo, mais do que a razão?
Vemos, por fim, como a esfera podia atravessar a Flatland mas não existe dentro dela e não pode ser confundida com Deus: aí é apenas numa imagem circular da sua superfície e não a esfera em si, ao contrário de Cristo, paradoxo do Deus e Homem, que podemos imaginar como uma esfera em duas dimensões: é visto como um círculo embora não seja simplesmente o corte axial mas sim todo o sólido, capaz de revelar a sua esfericidade com a transfiguração do Tabor[9]. Isto porque a esfera não morreu. Em virtude da morte, o quadrado adquire uma dimensão superior, como que um novo corpo, não físico mas ontológico. Não é físico senão tornar-se-ia um cubo, mas essa nova dimensão permite-lhe entrar a sair do seu mundo, do seu anterior plano de existência, tal como podia entrar e sair da Lineland quando a visita em sonho, tal como Cristo depois da morte e ressurreição podia entrar e sair «estando as portas fechadas»[10]. Se não abdicarmos das dimensões terrenas a morte pode-nos dar um corpo glorioso.
A história termina com a esfera a repor o quadrado na Flatland. Aqui, percebemos que a experiência por que passa, apesar de ser de morte, não é última nem totalmente efectiva. O orgulho do quadrado retorna ao reflectir sobre a gloriosa carreira que o esperava, levando ao proselitismo de evangelizar toda a Flatland, ao calculismo da abordagem à pregação, ao reduzir a Revelação à Demonstração, ao considerar que a omissão não diminuía a verdade. Por Resolução do Conselho, acaba preso e morto por pregar «o Evangelho das Três Dimensões»[11].
A morte toca a todos e nenhuma obra operada em vida nos poderá privar dessa vertigem. Como o quadrado voltou à Flatland para contar a sua aventura, também Lázaro teve de morrer uma segunda vez, se queria alcançar a bem-aventurança eterna. E vimos como a morte, mais do que uma chegada ao fim da vida é de facto uma partida para outra. É um total desprendimento da condição física, aniquilamento do Homem que vive e nascimento do Homem que supervive.
Seja essa vida superior ou inferior, com mais ou menos pontos, mais ou menos arestas, é sempre uma viagem sem retorno, para ir habitar eternamente nessa região enublada onde apenas o ensinamento e a ressurreição de Cristo pôde deixar alguma luz. Ou até que uma esfera nos conceda a Graça de voltar, mas não iguais: a experiência do quadrado é marcante mas não profundamente, dá-lhe um gosto pelo κήρυγμα[12] mas não lhe tira o desejo pela vida nem o leva a dizer como o santo
«Esta vida em que eu vivo / É privação de viver; / É um constante morrer / Até que viva contigo. / Ouve, meu Deus, o que digo: / Esta vida não a quero / Pois morro porque não morro»[13]
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de Seminário de Antropologia Filosófica
O Homem, unidade diferenciada de corpo alma e espírito: estrutura e manifestação
FT-UCP, 2015
[1] Em resumo.
[2] Ou a recente obra
cinematográfica de Christopher Nolan, Interstellar
(2014)
[3] cf. J. Tolkien,
As aventuras de Tom Bombadil e outras
histórias, 154
[4] Abbott, E., Flatland
- Uma aventura em muitas dimensões, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, 67ª
edição, 119
[5] João 14, 2
[6] E. Abbott, Flatland, 137
[7] Ibidem, 139
[8] cf. Lucas 15, 11-32
[9] Mateus 17, 2
[10] João 20, 26
[11] cf. E. Abbott, Flatland, 141
[12] Anúncio
[13] JOÃO DA Cruz, Obras completas, 73

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