Dos Vedas aos Samurais: influências religiosas na arte da guerra (4/4)


Budismo no Japão e influência do xintoísmo




Ao chegarmos ao Japão, encontramos um entrelaçado de diversas influências religiosas provenientes de vários pontos. Por um lado, já existiam diversas seitas, mais tarde designadas de forma geral por xintoísmo, a «via dos kami» como oposição à «via de Buda»; por outro, a entrada do budismo fez-se maioritariamente pela via das rotas comerciais e alianças governamentais, da China, através da Coreia.

Foi de grande importância a conversão do imperador Yumei (séc. VI d.C.) e do seu filho Shotoku, possibilitando o intercâmbio de monges, arquitectos e artistas entre os vários países. No entanto, à época, já existiam na China quase tantas escolas budistas quantos os templos. Por isso, o budismo que chega ao Japão, ainda que possa continuar a ser agrupado em Mahayana, Vajravana, Zen, etc, é recebido com diferentes ênfases doutrinais, conforme o monge ou emissário da corte imperial o recebia.

Numa dessas missões imperiais para recolha de informação sobre o budismo, o emissário Kukai viaja à China em 804 d.C e trás para o Japão importantes ensinamentos acerca do budismo esotérico, que veio a tornar-se a seita Xingon, caracterizada por um grande ritualismo, mantras, mudras e mandalas.

Também de grande importância foi a entrada no Japão da escola Zen, a partir do Chan chinês. Aqui aparecem também diversas facções, de entre as quais se destaca a seita Zen Rinzai, introduzida por Eisai em 1191. Como curiosidade, foi também Eisai que trouxe a planta do chá para o Japão (veremos o impacto mais á frente). Estes estabelecimentos religiosos foram acompanhados de disputas entre as várias seitas e mosteiros e uma progressiva “conversão sincrética” do xintoísmo ao budismo.

Do ponto de vista social, encontramos no Japão uma sociedade «com uma rígida divisão entre “samurais, camponeses, artesãos e comerciantes”»[1]. Os primeiros, terão aparecido cerca do século XI d.C. e estabelecido o xogunato um pouco por todo o território japonês.

Trata-se da classe guerreira do Japão feudal, comandados em ordem ascendente pelo daimyo, o xogun e o imperador, segundo o código do bushido. Este guerreiro é fortemente influenciado pelo esoterismo ritual do Xingon e a prática do Zen Rinzai, visto não só ter de dominar a arte da guerra, como descrita por Sun Tzu, como ainda ser versado nas artes, nomeadamente a escrita, à qual o Rinzai dava também muita importância. A observância do Xingon manifesta-se por exemplo na significação dada a cada peça de vestuário que compunha a armadura do guerreiro (ex: cada uma das cinco dobras do hakama corresponde a uma virtude das descritas no capítulo anterior). A vida, tal como a luta, deve ser praticada virtuosamente e com honra e em defesa do superior hierárquico, mesmo que isso leve à morte. Por isso, a prática do seppuku se mantém até aos dias de hoje, conservando parte do ritual associado à sua execução, mesmo depois de proibida em 1868.

Outro elemento importante da cultura dos samurais é a prática do tiro com arco, kyudo, especialmente como forma de exercício ascético, dado que as dimensões do yumi exigiam bastante perícia na sua utilização no campo de batalha (cinco cúbitos e meio, como descreve o Dhanurveda[2]). Não é por acaso que este também pode ser praticado em posição sentada, influência do Zen. A própria prática do tiro remete para a descrita no Dhanurveda, agora pela ordem inversa: o samurai só treina com o arco depois de treinar sem ele, a arte vem da mente.

Acerca da planta do chá, importada por Eisai, esta teve um impacto profundo na cultura japonesa, perpetuada até aos dias de hoje na Cerimónia do Chá, sado. Como em quase todos os ritos provenientes do Rinzai, a cerimónia é extremamente minuciosa, no que respeita aos gestos e utensílios para preparação da bebida e respectivo consumo.

A cultura samurai, especialmente o código de bushido continuou a influenciar bastante a cultura nipónica, mesmo após o declínio dos samurais, com a chegada de novos utensílios bélicos (armas de fogo), estratégias militares e sistemas políticos provenientes da europa, que conduziram o Japão feudal à Revolução Meiji de 1868 e à queda do sistema de xogunato. Como exemplo, temos a forma de seppuku da Segunda Guerra Mundial praticada pelos kamikazes ou a aplicação da arte da guerra de Sun Tzu ao mundo empresarial.



Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História e Teologia das Religiões
FT-UCP, 2015

[1] Yusa Michiko, Religiões do Japão, trad. Maria do Carmo Romão, Lisboa, Edições 70, 2002, p. 80
[2] Dhanurveda 1745





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