Dos Vedas aos Samurais: influências religiosas na arte da guerra (3/4)


Influência do taoismo e de Sun Tzu




Anexo ao nosso percurso é importante referir que antes do budismo, já existiam na China outras religiões e correntes filosóficas que, de forma sincrética, se foram unindo ao budismo durante a sua expansão, como o taoismo. Nos escritos do fundador Laozi, designados por Tao Te Ching encontramos a necessidade de uma vida virtuosa, segundo critérios de compaixão, frugalidade e humildade, também designados por “três tesouros”[1].

Além disso, a China sempre foi um país em guerras constantes pelo domínio dos reinos. Não é de estranhar que também se encontre no mesmo texto a referência à não-violência, excepto em caso de necessidade: «As boas armas são recipientes de desventura. (…) Seu uso é apenas para o inevitável. (…) Aquele que tem prazer em matar não pode triunfar sob o céu»[2].

Embora sem uma referência explícita a qualquer sistema religioso, é inspirado nesta doutrina que o general Sun Tzu (séc. VI a.C.) escreve na sua obra Sunzi Bingfa - A Arte da Guerra duas passagens de extrema importância:

1) A arte da guerra é governada por cinco factores: a Lei Moral ou obediência ao comandante, o Céu ou astronomia e meteorologia, a Terra ou geografia, o Comando ou as virtudes de sabedoria, sinceridade, benevolência, coragem e rigor, o Método e Disciplina ou o treino e a logística. «[O general] que conhece estes será vitorioso»[3].

2) «O líder competente é aquele que subjuga as tropas inimigas sem lutar»[4].

Pelo facto de o taoismo se tratar predominantemente de um sistema filosófico, pela sua influência em Sun Tzu é possível constatar a falta de sentido religioso em toda a obra, apresentando uma ruptura para com a arte da guerra divinamente revelada, proveniente da tradição védica. Neste contexto se percebe a forte adesão à prática dos exercícios físicos ensinados por Bodhidharma aos monges em Shaolin: ocupa-se de harmonizar o corpo (pelos exercícios marciais) e o espírito (pela prática da meditação), ainda com o propósito de libertação do samsara. E ainda, o sentido espiritual unificador do espírito humano com filosofia e a sociedade à época de Bodhidharma, contribuiu em grande parte para a expansão e aceitação do budismo Mahayana que, com a referida influência do taoismo, veio a tornar-se o Chan.




Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História e Teologia das Religiões
FT-UCP, 2015

[1] Tao Te Ching 67
[2] Tao Te Ching 31
[3] The Art of War 1, 3-11
[4] The Art of War 3, 6



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