Discurso acerca da dignidade do homem
Na obra de Giovanni Pico della Mirandola, o “Discurso acerca da dignidade do homem”, o autor atesta a teoria de Platão de que o homem se pode elevar através da filosofia, até atingir a contemplação, não já do Sumo Bem, mas do próprio Deus.
Ele refere que durante a criação, «o Artífice desejava que houvesse alguém capaz de compreender a razão de uma obra tão grande» e, por isso, ao criar o homem, dotou-o daquilo que lhe era mais próprio: a liberdade e capacidade de decisão. Fez o homem como «obra de natureza indefinida» para que este, pelo exercício do seu arbítrio, pudesse descer ao nível das bestas ou subir ao lugar dos anjos. Deus dotou o homem de «germes de toda a vida» para ele próprio cultivar e colher os frutos, segundo a sua vontade.
Pico della Mirandola descreve então este itinerário de ascensão ou abaixamento, expondo de que modo «poderiam [os homens] tornar a alma apta para o voo», explicando o que é a «água da vida».
O autor descreve este percurso de forma semelhante ao sonho do Jacob, como uma escada que se estende desde «o fundo da terra até ao cume dos céus», por onde os anjos sobem e descem e, por onde o homem pode também subir ou descer, «imitando a vida dos anjos», começando por esclarecer a hierarquia dos mesmos e as características de cada grau angélico, para então explicar como pode o homem imitar os anjos e subir na escada, até alcançar a contemplação de Deus, que permanece no topo.
O primeiro degrau supramundano é o dos Tronos, dotado da solidez do juízo, recto discernimento. Este é o degrau da filosofia moral, através da qual o homem pode purificar «toda a parte sensível onde estão sediadas as seduções corpóreas» que o prendem à terra, pois levam-no a comportar-se como as bestas que não levantam os olhos do chão. Pico della Mirandola adverte para que aqueles ainda impuros fiquem de fora, ouvindo as leis numa vida activa, até as viverem e se purificarem, com justiça e expiação. Neste estádio o homem deve «purificar a viscosidade dos olhos com a ciência moral». Aqueles que forem então considerados dignos, começarão a subir na escada.
Esta segunda etapa corresponde aos Querubins, dotados do «esplendor da inteligência» no exercício da filosofia natural, que ilumina o juízo e que pela investigação e compreensão, fazem os homens subir, para em seguida descer «instruídos e preparados para as tarefas da acção». Esta vida contemplativa é exercitada por meio da dialéctica, que dispersa a treva da razão «mediante o conhecimento das coisas divinas». Este caminho contemplativo, que o homem deve imitar filosofando, permite aos anjos subir e descer na escada, ora para poder levar Deus aos outros ora para poder conduzir outros a Deus; permite ao homem elevar-se até ao seio do Pai. «A dialéctica acalmará a razão… A filosofia natural acalmará os conflitos da opinião», é um guia para o homem neste caminho de ascensão. O homem deve pois «dirigir atentamente o olhar com a dialéctica… habituar-se a suportar na contemplação da natureza a ainda fraca luz da verdade».
A última fase desta escada é aquela atingida pelos Serafins, que ardem no amor de Deus, «está em Deus e Deus está nele, e Deus e ele são um só». Esta é a chamada vida unitiva, alcançada pelo exercício máximo da filosofia que o autor considera como sendo a teologia. Compara os Serafins àqueles homens que são acolhidos no tabernáculo por mérito da sublimidade teológica, que usufruem da glória de Deus, retirado totalmente o véu da imagem, «até que finalmente, com a meditação teológica e o santíssimo culto de Deus», também pela fé, o homem possa contemplar a Deus não mais como num espelho mas face a face.
Monografia no âmbito da cadeira de Antropologia Filosófica
FT-UCP, 2014

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