Temperança
A primeira parte do diálogo incide na temática da antropologia e, tal como em Platão, o primeiro objecto de análise de Santo Agostinho é o equivalente à alma concupiscente e à virtude que a deve comandar: a temperança.
Após concordarem que o homem é composto de alma e corpo Agostinho questiona-os acerca de para qual das partes o homem tem apetite por alimento, concluindo que tanto o corpo como a alma têm necessidade de se alimentar. Sobre a falta de alimento para o corpo, Agostinho afirma apenas que «sem ele [o alimento] emagrece [o corpo]»[1]. Caso a alma não se alimente, fica cheia de nequícia, «mãe de todos os vícios porque, como queriam dizer os antigos, ela não é coisa nenhuma, ou seja, é o nada. A virtude que é contrária a esse vício chama-se frugalidade.»[2] Agostinho distingue também dois tipos de alimentos para a alma, tal como para os corpos: uns que a sustentam e outros perniciosos[3].
Neste ponto, Agostinho retorna o diálogo à questão dos bens do corpo para procurar a relação entre a posse dos bens e a felicidade: «será então feliz quem tem o que quer?»[4] Partindo da conclusão anterior acerca dos tipos de bens, ele afirma, citando Hortênsio, não poder ser feliz quem quer o que não convém tal como não o é quem não alcança o que quer, pois se um homem quer e se alimenta de nequícia, definha e não resta homem onde possa habitar a felicidade.
O grupo averigua então a natureza dos bens úteis para o homem, concordando que devem ser sempre permanentes e que a sua posse não dependa das circunstâncias, «porque o que é mortal e caduco não pode ser por nós possuído quando queremos ou durante tanto tempo quanto queremos.»[5] Quem põe a felicidade nas coisas perecíveis não é feliz, não só porque vive no medo de as perder, mas também porque quando as perde dissipa a felicidade.
É notório que os bens em questão, neste momento do discurso, se tratam dos bens do corpo e não da alma. Estamos ainda no domínio da sensibilidade, embora muitas vezes os discursos toquem o supra-sensível pois o homem não é apenas corpo como foi constatado anteriormente. Por essa razão, Agostinho pergunta à mãe se é feliz quem vive na abundância de bens ou quem impõe a si mesmo um limite. Esta responde que a explicação para a felicidade não está nos bens propriamente ditos mas sim na imposição de um limite ao desejo[6], na moderação da alma. A esta moderação chama-se temperança, «virtude moral que modera a atracção dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados.»[7]
Neste momento, Agostinho dá um grande salto no raciocínio[8], introduzindo a primícia de que Deus «é eterno e sempre permanente»[9], forçando o diálogo a convergir na afirmação «quem possui Deus é feliz.»[10] Os intervenientes do diálogo passam então para um outro campo na análise: procurar os requisitos éticos que possibilitam ao homem possuir Deus e, por isso, ser feliz.
Excerto da monografia no âmbito da cadeira de História da Filosofia Medieval
FT-UCP, 2014
[1] Agostinho, Diálogo
sobre a felicidade: edição bilingue, Edições 70, Lisboa, 35
[2] Ibidem, 37
[3] cf. Ibidem, 39
[4] Ibidem
[5] Ibidem, 43
[6] cf. Ibidem
[7] Catecismo da Igreja Católica,
1809
[8] De facto, convém não
esquecer que foi ele quem preparou a “refeição” que lhes oferece por isso é
expectável que a tenha “cozinhado” bem antes de servir. Daí, este e outros
saltos de raciocínio ao longo da obra, que vão conduzindo à Pátria.
[9] Agostinho, Diálogo
sobre a felicidade, 45
[10] Ibidem

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